A maternidade mudou completamente a rotina, o trabalho e a forma de enxergar a vida de duas mulheres palmenses que vivem experiências diferentes, mas marcadas pela dedicação integral aos filhos. De um lado, a empresária Sthefanny, conhecida como Tefinha, reorganizou a própria barbearia para conseguir trabalhar ao lado do filho pequeno. Do outro, Mônica Ferreira transformou a experiência como mãe atípica em atuação permanente na defesa dos direitos das pessoas com deficiência e das famílias cuidadoras.

Conhecida nas redes sociais por aparecer atendendo clientes enquanto carrega o filho no canguru, Tefinha conta que precisou remodelar toda a dinâmica profissional após o nascimento de Pedro, que está prestes a completar nove meses. A empresária afirma que atualmente toda a rotina é organizada em função das necessidades do filho, inclusive os horários de atendimento e a forma como administra o negócio.

“Durante a manhã eu não vou e aí eu consigo organizar as coisas da gestão da barbearia mesmo de casa. À tarde eu vou e aí eu tenho uma moça que fica comigo, porém quando ele se irrita ou quando ele quer dormir e ele mama também, ele só quer a mim. Então, eu quase não tenho atendido mais clientes novos, porque os antigos eles têm mais paciência, né? Porque eu preciso parar às vezes, eu preciso amamentar ele. Muitos cortes, eu corto com ele no canguru”, relata.

A mudança recente para um novo espaço também levou em consideração a necessidade de adaptar o ambiente para receber Pedro durante os atendimentos. Segundo ela, o local ganhou uma estrutura voltada para oferecer mais conforto ao filho enquanto ela trabalha, permitindo que ele permaneça ao seu lado ao longo do dia.

“Eu levei um chiqueirinho para ele, né? Que a gente pode colocar ele lá, tem um colchãozinho para ele, bem tranquilo. Tem um micro-ondas para a gente esquentar a comidinha, tem a geladeirinha para eu poder guardar as coisas. Então, o espaço dessa nova barbearia também já foi pensado no Pedro. Lá é um lugar muito melhor do que a outra barbearia que eu estava, porque tem espaço para ele”, afirma.

Mesmo conciliando atendimento, amamentação e administração da empresa, Tefinha diz que os clientes antigos acompanham a maternidade com compreensão desde a gestação, o que ajudou a tornar a adaptação menos difícil no ambiente de trabalho: “Eles já me conhecem antes do Pedro. Eles estiveram comigo na gestação inteira. Então, para eles, ver o Pedro crescendo é motivo de alegria. E se o Pedro tá lá comigo, dá uma choradinha, eu preciso parar. Eles já sabem que agendando comigo, eles precisam ter um tempo a mais”, conta.

Clientes registram momentos ao lado de Tefinha e o filho | Foto: Arquivo Pessoal

A parte mais difícil da rotina, segundo ela, acontece principalmente fora da barbearia, quando precisa encontrar tempo para resolver questões administrativas e estudar. Muitas dessas tarefas passaram a ser realizadas durante a madrugada, enquanto o filho dorme: “Já teve dia de eu ir dormir 4 horas da manhã, porque era o momento que ele estava dormindo e eu ia ter a concentração total para fazer o que precisava ser feito”, relata.

Ao falar sobre o impacto da maternidade na própria visão de vida, Tefinha afirma que passou a enxergar a presença materna de maneira diferente e diz compreender a dor de mulheres que precisam deixar os filhos para conseguir trabalhar.

“Depois que eu tive ele, eu percebi que maternidade é presença e que triste para algumas mães não poder estar com os seus filhos, porque não é todo mundo que tem o privilégio de estar com o seu filho. Tem mãe que vai precisar deixar lá no berçário de manhãzinha, só vai pegar à tarde. Isso é realmente muito triste”, afirma.

Ela também reconhece que a flexibilidade proporcionada pelo empreendedorismo tornou possível manter o filho sempre por perto, algo que considera um privilégio diante da realidade de muitas trabalhadoras: “Graças a Deus, a gente como empreendedora, enquanto empresário, tem privilégios que as pessoas que trabalham no CLT não têm. Então, eu organizo a minha agenda de maneira que tudo que eu faço ele tá comigo”, diz.

A experiência da maternidade faz parte da trajetória pessoal e profissional de Mônica Ferreira, ex-presidente e atual conselheira do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência de Palmas (Compede). Segundo ela, a relação com os filhos modificou completamente a forma como passou a enxergar a vida, mas um episódio ocorrido em 2022 mudou de forma definitiva sua atuação e o caminho que passou a seguir na defesa dos direitos das pessoas com deficiência.

“Eu sou mãe monoparental de três filhos neurodivergentes, então, desde os meus 18 anos de idade, a maternidade transformou completamente a forma como eu vejo tudo. Mas, o ponto que virou a chave da minha vida foi em 2022 quando minha filha mais velha, já deficiente intelectual, aos 25 anos, ela ficou cega. Precisei aprender a lidar não apenas com o impacto emocional que esse novo cenário causaria em todos nós, mas também com a necessidade de buscar informações para garantir seus direitos”, relata.

A partir dessa vivência, Mônica afirma que passou a atuar a partir da própria realidade enfrentada dentro de casa, convivendo diariamente com os desafios impostos às famílias de pessoas com deficiência. Ela ressalta que mães atípicas ainda enfrentam uma rotina marcada por exaustão: “Muitas mulheres vivem uma rotina exaustiva, tentando conciliar trabalho, cuidados, atendimentos e a luta diária pelos direitos dos filhos. Muitas acabam assumindo sozinhas responsabilidades que deveriam ser compartilhadas pelo poder público e pela sociedade”, diz.

Segundo Mônica, além da sobrecarga cotidiana, essas mães ainda convivem com desinformação, burocracia e falta de acolhimento, o que contribui para situações frequentes de isolamento e desgaste emocional.

“Muitas mães vivem o desgaste constante de precisar explicar, justificar e reivindicar direitos básicos. Também enfrentam julgamentos, isolamento e sobrecarga emocional. Inclusão não pode ser apenas discurso, precisa acontecer de forma concreta, com acessibilidade, acolhimento, políticas públicas eficientes e compromisso coletivo”, afirma.

Embora reconheça que a pauta da inclusão ganhou mais espaço nos últimos anos, Mônica considera que os avanços ainda não alcançam de maneira efetiva: “Ainda faltam políticas públicas mais efetivas, integradas e permanentes, que enxerguem não apenas a pessoa com deficiência, mas também quem cuida, acompanha e sustenta toda essa trajetória junto com ela. A frase ‘cuidar de quem cuida’ virou um jargão, mas, infelizmente, mães de filhos com deficiência seguem adoecendo e adoecidas”, afirma.

Ao falar sobre o significado da maternidade na própria vida, Mônica diz que os filhos se tornaram sua principal motivação: “A maternidade é o que dá sentido à minha trajetória. Foi através dela que descobri uma força que eu mesma não conhecia. Meus filhos me ensinaram sobre amor, resistência, resiliência e coragem. Ser mãe dos meus filhos me transformou profundamente como mulher, ser humano e defensora dos direitos das pessoas com deficiência”, relata.

Mônica ao lado dos outros dois filhos | Foto: Arquivo Pessoal