Entre latidos, carinho e atividades guiadas, cães treinados passaram a fazer parte da rotina de crianças atendidas no Centro Especializado em Transtorno do Espectro Autista (Cetea), no Tocantins. A iniciativa, desenvolvida em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde (SES-TO), a Polícia Militar do Tocantins (PMTO) e a Polícia Penal, utiliza a cinoterapia como atividade complementar às intervenções clínicas, com foco no desenvolvimento social, emocional, comportamental e motor dos pacientes.

Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, em nota ao Jornal Opção Tocantins, a atividade não se caracteriza como tratamento isolado, mas como suporte às intervenções conduzidas pela equipe técnica da unidade. A participação é destinada aos usuários do Cetea que estejam em atendimento no dia da ação e que sejam considerados aptos para a interação com o animal, conforme avaliação multiprofissional.

A percepção dos resultados também é observada pelas famílias. Em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, a auxiliar de farmácia hospitalar Glaucia Geisa Viana Coqueiro, mãe do paciente Emanuel Viana Sousa, de 7 anos, relatou mudanças no desenvolvimento do filho após o início das sessões.

Segundo ela, os avanços passaram a ser percebidos em diferentes aspectos do comportamento e da coordenação da criança. “Ver a evolução do meu filho tem sido uma experiência emocionante e cheia de gratidão. Ele é paciente do Cetea e, recentemente, iniciou os atendimentos com cães, e os resultados têm sido maravilhosos. Tenho percebido melhorias significativas no equilíbrio, além de avanços no desenvolvimento cognitivo, refletindo no comportamento, na atenção e na forma como ele interage com o mundo ao seu redor.”

A mãe também destacou a forma como o filho tem reagido às atividades e o vínculo construído durante as sessões. “Mas, acima de tudo, o que mais me toca é vê-lo feliz. Ver o Emanuel se divertindo durante as sessões, criando vínculo com os cães e participando com entusiasmo de cada atividade é algo indescritível. É lindo acompanhar o quanto ele tem se desenvolvido de forma leve, respeitosa e cheia de estímulos adequados.”

Glaucia Geisa Viana acrescentou ainda que acompanha cada etapa do processo terapêutico. “Sou profundamente grata por cada avanço, por cada conquista e por todo o carinho envolvido nesse processo. Ver meu filho evoluindo assim me enche de esperança e certeza de que estamos no caminho certo.”

Projeto surgiu no Grupo de Operações com Cães

A iniciativa dentro da Polícia Militar surgiu no Grupo de Operações com Cães (GOC), unidade vinculada ao Batalhão de Polícia de Choque (BPChoque). Em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, o comandante do grupo, 2º Tenente QOA Everaldo Belo de Freitas, explicou que o projeto nasceu a partir da percepção de que a atuação da unidade poderia alcançar também a área social.

Segundo o comandante, o grupo já atuava em frentes operacionais e, a partir dessa experiência, identificou a necessidade de ampliar a atuação para o social. “A ideia surgiu dentro do próprio Grupo de Operações com Cães, que já atua em três grandes áreas: detecção, busca e captura, e salvamento. A equipe percebeu a necessidade de também desenvolver um trabalho voltado para a área social, entendendo que uma das missões da Polícia Militar é servir e proteger.”

Foto: Divulgação

Ainda conforme Everaldo de Freitas, o projeto começou a ser estruturado após um período de estudos sobre os impactos da terapia assistida por cães no atendimento a públicos específicos. “A partir disso, o grupo passou a pesquisar a terapia assistida por cães e os benefícios que ela pode proporcionar a pessoas em situação de vulnerabilidade ou com necessidades especiais.”

A partir disso, o grupo passou a pesquisar a terapia assistida por cães e os benefícios que ela pode proporcionar a pessoas em situação de vulnerabilidade ou com necessidades especiais. O objetivo foi aproximar essas pessoas da Polícia Militar, transmitindo confiança, acolhimento e segurança, especialmente para pessoas com transtorno do espectro autista, atendidos em APAEs, creches e outras instituições.

Parceria com o Cetea

A iniciativa passou a fazer parte do atendimento do Cetea após alinhamento entre a unidade e a Polícia Militar. “A parceria surgiu após os coordenadores do Cetea tomarem conhecimento do projeto de terapia assistida por cães desenvolvido pelo Grupo de Operações com Cães. A partir desse contato, foi realizada uma reunião entre as partes, na qual a parceria foi formalizada.”

Segundo o GOC, a equipe do Cetea já conhecia experiências semelhantes desenvolvidas em outros estados e reconhecia que a terapia assistida por cães pode trazer benefícios significativos ao tratamento de pessoas com transtorno do espectro autista. 

Bia e Marley: como funcionam as sessões

Durante as atividades, a equipe do GOC é responsável por toda a condução inicial do contato entre os cães e os pacientes, desde a preparação dos animais até a inserção no ambiente terapêutico. “O papel do Grupo de Operações com Cães é preparar os cães e os policiais responsáveis, conduzi-los ao ambiente terapêutico e realizar a aproximação entre o animal e o paciente”.

Durante as sessões, a interação é feita de acordo com as características e necessidades de cada paciente. A equipe avalia o grau de aproximação que a pessoa consegue ter com o cão e, a partir disso, desenvolve atividades específicas, respeitando o ritmo e as limitações de cada assistido.

Entre os cães que participam do projeto está a cadela Bia, utilizada nas sessões terapêuticas. Segundo o comandante, o perfil do animal é um dos fatores observados para a atividade. “A cadela Bia participa de forma bastante positiva das atividades. Ela é extremamente dócil, gosta de contato humano e responde muito bem a carinho e aproximação”.

Foto: Divulgação

Além de Bia, o projeto também conta com a participação do cão Marley. Ambos pertencem a pessoas da sociedade e atuam como parceiros da Polícia Militar na iniciativa, com acompanhamento de adestradores do Batalhão de Choque.

O comandante explica ainda que o simples contato com o cão pode estimular a liberação de ocitocina, hormônio associado à sociabilidade, ao vínculo e ao bem-estar. No entanto, a avaliação clínica e os resultados específicos do tratamento são acompanhados e diagnosticados pela equipe técnica do Cetea. 

Segundo a corporação, cada cão possui um adestrador responsável. A cadela Bia é treinada pelo policial ST Borges, enquanto Marley é treinado pelo policial ST Camargo, ambos integrantes do Batalhão de Choque e do Grupo de Operações com Cães.

Os policiais identificaram nesses animais características ideais para atuação em projetos sociais, como docilidade, facilidade de contato e afinidade com pessoas. Após conversa com os proprietários, os cães foram autorizados a participar da iniciativa.

Critérios para escolha dos cães

Segundo Everaldo, a escolha dos cães segue critérios específicos. “Os principais critérios observados são o comportamento dócil, a facilidade de interação com seres humanos, a tranquilidade e a afinidade do cão com crianças e pessoas em situação de vulnerabilidade”. Segundo a corporação, apenas cães com perfil adequado, que demonstrem segurança, calma e boa aceitação ao contato físico, são selecionados para participar das sessões.

A atuação do GOC consiste justamente em promover esse primeiro contato, observando as necessidades de cada pessoa e proporcionando uma interação segura, gradual e adequada entre o cão e o assistido. 

A Polícia Militar informou ainda que a iniciativa começou a ser implantada gradualmente em meados de 2025, após período de estudos e preparação, e desde então vem sendo desenvolvida em parceria com o Cetea e outras instituições.Desde então, a PMTO, por meio do Grupo de Operações com Cães, vem dando continuidade ao trabalho em parceria com o Cetea e outras instituições.