O Tocantins completa 38 anos nesta segunda-feira, 5, criado em 5 de outubro de 1988, pelo artigo 13 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal, que fixou seus limites na parte norte do território de Goiás. Na data da criação, o estado tinha 79 municípios. Hoje tem 139.

O Jornal Opção Tocantins ouviu a historiadora Êça Pereira, doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), docente da Universidade Federal do Tocantins (UFT) cedida ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Tocantins (Iphan-TO), e Elpídio Severino, de 90 anos, que chegou à região em 1956, quando ela ainda integrava Goiás, e acompanhou a criação do estado e a construção de Palmas.

A proposta de separar o norte de Goiás é anterior à Constituição de 1988, em 1873, houve a proposta de criação da Província da Boa Vista do Tocantins, sem efeito imediato, e o Manifesto de Porto Nacional, de 1956, reforçou o movimento separatista. Em 15 de novembro de 1988, Siqueira Campos foi eleito o primeiro governador do estado. Ele tomou posse em 1º de janeiro de 1989, com Miracema do Tocantins como capital provisória.

Miracema época em que se tornou capital provisória | Foto: Divulgação

A criação do estado, ocupação anterior e ausência de museu e arquivo

Êça Pereira pesquisa a história política da América Latina contemporânea e hoje trabalha com o patrimônio imaterial brasileiro no estado. Ao avaliar o significado da criação do Tocantins, ela a situou em um processo de ocupação do interior do país.

“A criação do estado do Tocantins foi mais um passo na marcha para o oeste, que começou com Getúlio Vargas, com a proposta de interiorização da ocupação do Brasil, que é ainda mais antiga, e a divisão de Goiás foi uma etapa nesse sentido. O Tocantins é cortado de norte a sul pela BR-153, a Belém-Brasília, e Palmas, uma capital planejada, seria mais uma cidade para incentivar essa ocupação do interior, com todo o investimento e toda a burocracia que acabam trazendo funcionários que formam um mercado consumidor, juntamente com comerciantes que potencializam a produção e a circulação de mercadorias.”

BR-153, em Gurupi, sul do Tocantins | Foto: Divulgação

Sobre as transformações desde 1988, a historiadora citou o crescimento populacional, a produção econômica voltada ao agronegócio e a perda de cobertura do Cerrado.

“Eu destacaria o aumento populacional, e um dado que deve ser registrado também é a produção econômica, muito voltada para o agronegócio, o que leva à questão do Cerrado, cuja preservação é urgente por causa da perda de áreas de cobertura. O Cerrado é a grande caixa d’água do Brasil e essa ocupação pelo agronegócio precisa ser revista, porque nós estamos numa emergência climática e o Tocantins tem um papel fundamental na preservação do meio ambiente no Brasil.”

Para Êça Pereira, a história política do estado e a história da ocupação do território são processos distintos, com datas diferentes.

“A história política da divisão do estado é mais recente do que a história da ocupação do território, que data do período colonial, da expansão do bandeirantismo, e por isso temos cidades como Porto Nacional, Arraias e Natividade, que são mais antigas do que o estado e estão relacionadas à caça às pedras preciosas, ao ouro e ao ciclo da escravização, tanto de populações africanas quanto de populações indígenas. Essa é uma característica do Tocantins, o descolamento entre a história política da criação do estado, nos anos 1980, e a ocupação do território, que envolve populações tradicionais mais antigas do que o estado.”

Casas em Porto Nacional na década de 80 | Foto: Bey Aires

Ao tratar da identidade tocantinense, a historiadora comparou o estado a unidades da federação mais antigas e apontou a inexistência de um museu e de um arquivo estaduais.

“Em outros estados mais antigos do Brasil, a identidade foi construída por uma elite que construiu uma história e monumentos para forjar essa identidade, e aqui no Tocantins nós não observamos esse movimento nem a vontade de construir uma identidade abrangente. Nós não temos um museu do Estado que conte a história de ocupação deste território, não há um arquivo do Estado que possa reunir a documentação da ocupação e do estado político, e o que temos são monumentos pontuais, muitos deles vinculados a um personalismo que dificulta a formação dessa identidade, ainda mais para os imigrantes que continuam chegando ao Tocantins.”

Sobre os momentos que levaram à configuração atual, ela mencionou as populações indígenas anteriores à colonização, o período colonial e a construção da rodovia Belém-Brasília. Segundo a historiadora, grupos articulados durante a Constituinte de 1988 pressionaram pela criação do estado dentro do discurso do municipalismo, no momento de reorganização política do país.

“Antes da chegada dos portugueses havia as populações indígenas que aqui estavam, com destaque para os Xerente, os Pinajé e os Krahô, além das demais etnias, e temos que destacar o período colonial, com as bandeiras, as entradas e a ocupação do interior pelos colonizadores pelo rio, uma convivência violenta que não pode ser minimizada, e merece destaque também a construção da rodovia Belém-Brasília, que perpassa todo o território de norte a sul.”

O Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) contabilizou 20.023 pessoas autodeclaradas indígenas no Tocantins, o que corresponde a 1,32% da população do estado, ante 13.131 no Censo 2010. Há ao menos uma pessoa indígena em 125 dos 139 municípios. Tocantínia tem a maior população indígena, com 4.086 pessoas, seguida por Goiatins, com 2.650, e Tocantinópolis, com 2.352.

Indígenas Xerente do Tocantins | Foto: Thiago Sá/Governo do Tocantins

Questionada sobre o que a população deveria conhecer ou preservar, Êça Pereira citou os sítios arqueológicos, a cultura e os quilombos.

“O Tocantins tem sítios arqueológicos de 12 mil anos que devem ser preservados e que a população deveria conhecer mais e melhor, e tem uma cultura muito rica, com a suça, o capim dourado e a história dos quilombos na região, que deveria ser mais conhecida, mais preservada e mais divulgada. A população tocantinense merece contar com um museu histórico e com um arquivo histórico que alcancem a diversidade populacional que o estado contém, e não apenas fazer menção à história de uma determinada família ou de um determinado sujeito, na mesma lógica do século XIX, da história dos heróis.”

Painel com pintura no sítio rupestre Bico de Pedra, em Lajeado | Foto: Arquivo pessoal

No mesmo Censo, o IBGE identificou 13.077 pessoas quilombolas no Tocantins, em 88 localidades associadas a 79 comunidades declaradas pelos informantes, distribuídas em 28 municípios, entre eles Almas, Arraias, Dianópolis, Natividade, Paranã e Porto Nacional.

Êça Pereira | Foto: Arquivo Pessoal

De Santa Rita de Cássia, na Bahia, a Porto Nacional

Elpídio Severino dos Anjos chegou ao então norte de Goiás em 1956, vindo de Santa Rita de Cássia, na Bahia. Casado há quase 60 anos, tem cinco filhos e dez netos. Constituiu família no Tocantins: casou em 1967, em Dianópolis, onde nasceu o filho mais velho. Outros filhos nasceram em Almas, e a caçula nasceu em Dianópolis.

Ele relatou os motivos da mudança:

“Eu cheguei em 1956, vim de Santa Rita, na Bahia, em busca de oportunidade, e primeiro fui para Dianópolis, onde comecei a trabalhar em um instituto de pesquisa, uma entidade parecida com o que hoje seria o Sesi, que tinha muitas oficinas voltadas para adultos. Meu irmão, Raimundo, trabalhava lá e eu também, em uma oficina de ferraria com um rapaz de Dianópolis.”

A trajetória incluiu deslocamentos para Brasília, durante a construção da capital federal, e para Belo Horizonte, antes da compra de uma fazenda em Almas.

“Depois veio a época da construção de Brasília e eu fui para lá, consegui ganhar um dinheiro e voltei para Santa Rita, depois fui para Belo Horizonte e, mais tarde, voltei novamente para cá, e foi depois dessa volta de Belo Horizonte que comprei uma fazenda em Almas e trouxe a família, que foi a época em que fiquei noivo.”

Elpídio Severino dos Anjos | Foto: Arquivo Pessoal

Em Almas, Elpídio trabalhou na coletoria, órgão ligado à arrecadação de impostos da Secretaria da Fazenda de Goiás. Depois, atuou em um escritório e foi contratado por um instituto de pesquisas. Mais tarde, trabalhou na Prefeitura de Almas, onde exerceu a função de tesoureiro por 12 anos. Deixou o município em busca de estudos para os filhos, já que na época a cidade não disponibilizava ensino médio.

“Naquela época meus filhos já estavam na idade de começar o ensino médio e em Almas não tinha, comprei uma casa em Porto Nacional, onde uma colega que trabalhava comigo também foi transferida e conseguiu a minha transferência. Eu já tinha uma casa aqui e estava havia cerca de um ano, porque tinha deixado a casa com minha irmã, e depois que consegui a transferência veio todo mundo.”

Elpídio ainda guarda fotos da época em que trabalhou em Belo Horizonte | Foto: Arquivo Pessoal

Em Porto Nacional, permaneceu como servidor até se aposentar, mas antes tirou licença para interesses particulares e abriu um comércio, um dos primeiros da cidade. Ele explicou a decisão de empreender:

“Eu não estava satisfeito com o emprego, porque o salário tinha um teto e eu achava que o comércio poderia dar mais, e de fato deu. O comércio começou por volta de 1987 e ficou como uma das minhas principais atividades até os meninos se tornarem adultos, e depois passei um período trabalhando com meu irmão e, mais tarde, me aposentei.”

Após a aposentadoria, passou a administrar imóveis e a construir. Ele acompanhou os primeiros anos de Palmas e contou como adquiriu imóveis na capital recém-criada.

“Quando Palmas surgiu, tive algumas dificuldades porque, naquela época, os lotes eram comprados por licitação, e cheguei a comprar um lote por licitação, mas a localização não era muito boa, então fui procurando outros lugares. Havia algumas restrições para construção de prédios de dois andares em determinadas áreas, então comprei um ponto e a partir daí fui comprando mais imóveis, e como a cidade tinha acabado de ser criada eu fui aproveitando as oportunidades que apareceram.”

Sobre o estado, Elpídio Severino disse que conhece boa parte do Brasil e que prefere viver no Tocantins:

“Eu conheço um bocado do estado e tenho preferência por aqui, e gostei da criação do estado porque ele se mostrou muito promissor e trouxe bons resultados, com crescimento, construção e geração de emprego. Tudo era mais fácil porque os outros lugares já eram muito concorridos e aqui era novo, e eu aproveitei o que pude, fui procurando o que fosse melhor e deu certo.”

Uma história particular entre as de quase 1,6 milhão de pessoas que hoje vivem no estado e que, em diferentes momentos e circunstâncias, fizeram do Tocantins o lugar para trabalhar, formar famílias e construir memórias que atravessam gerações