O Tocantins está entre os cinco Estados brasileiros que mais reduziram a desigualdade de renda entre 2022 e 2025, segundo uma pesquisa do Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Nordeste, do FGV Ibre. O levantamento, elaborado com base em dados da Pnad Contínua, analisou a evolução da renda, da pobreza e da extrema pobreza nas 27 unidades da Federação.

De acordo com o estudo, a renda média domiciliar per capita aumentou em todos os Estados brasileiros no período. A análise, porém, aponta que o crescimento da renda, isoladamente, não explica a redução da pobreza e da extrema pobreza registrada no país.

A redução da desigualdade apresentou uma correlação mais forte com a queda da pobreza. Entre 2022 e 2025, a pobreza diminuiu em todos os Estados, enquanto a extrema pobreza recuou em 26 das 27 unidades da Federação.

O Índice de Gini, utilizado para medir a concentração da renda, apresentou resultados diferentes entre os Estados. A desigualdade diminuiu em 14 unidades da Federação e aumentou em outras 13. Nesse indicador, quanto mais próximo de 1, maior é a concentração e a desigualdade na distribuição da renda.

Um dos autores da pesquisa, o economista Flávio Ataliba, explica que o aumento da renda contribuiu para a redução da pobreza, mas o impacto varia conforme a forma como os ganhos são distribuídos entre a população.

Por isso, segundo o pesquisador, políticas voltadas ao aumento da renda da população mais pobre e à redução da desigualdade, como ações de melhoria da qualificação profissional, podem produzir efeitos sobre os índices de pobreza.

“A renda no Brasil é muito concentrada, então quando aumenta a renda, as camadas mais elevadas da distribuição da renda captam mais esse aumento. Quando a renda cresce, pouco dessa renda cresce lá na base da distribuição. Então, o que a gente vê é que essa associação entre crescimento da renda e redução da pobreza, ela não é tão forte”, explica.

Segundo o estudo, a correlação entre o crescimento da renda e a redução da taxa de pobreza foi de -0,30. Na prática, isso significa que os Estados que apresentaram maior crescimento da renda não foram necessariamente aqueles que registraram as maiores reduções da pobreza.

Entre as cinco unidades da Federação com maior crescimento da renda domiciliar per capita estão Pernambuco, Distrito Federal, Goiás, Amazonas e Paraná. O Amazonas foi o único desses cinco Estados que também aparece entre aqueles que mais reduziram a taxa de pobreza.

No Amazonas, a renda domiciliar per capita cresceu 33,3% entre 2022 e 2025. No mesmo período, a proporção de pessoas em situação de pobreza caiu de 58% para 41,2%, uma redução de 16,8 pontos percentuais, a maior registrada no país.

No Distrito Federal, que apresentou o segundo maior crescimento da renda, de 36,3%, a taxa de pobreza diminuiu 3,6 pontos percentuais, a menor redução entre as unidades da Federação.

Quando a relação analisada é entre desigualdade e pobreza, o resultado é diferente. A correlação entre a variação do Índice de Gini e a queda da taxa de pobreza foi de 0,65, a mais forte identificada pela pesquisa. O levantamento aponta que os Estados que mais reduziram a desigualdade tenderam também a apresentar maiores quedas na taxa de pobreza.

Na extrema pobreza, a redução da desigualdade também apresentou uma associação mais forte com a queda da taxa, com correlação de 0,47.

Entre os cinco Estados que mais reduziram o Índice de Gini estão Paraíba, Roraima, Bahia, Amapá e Tocantins. Quatro dessas unidades também aparecem entre as cinco que mais reduziram a taxa de pobreza.

Renda, desigualdade e pobreza nos Estados

As variações dos indicadores entre 2022 e 2025 mostram os Estados que apresentaram os maiores avanços em diferentes indicadores.

Maior aumento da renda domiciliar per capita (%)

1º Pernambuco — 41,3%
2º Distrito Federal — 36,3%
3º Goiás — 33,4%
4º Amazonas — 33,3%
5º Paraná — 33,2%

Maior redução da desigualdade pelo Índice de Gini

Paraíba — (-0,051 p.p.)
Roraima — (-0,042 p.p.)
Bahia
Amapá
Tocantins

Maior redução da taxa de pobreza (p.p.)

Amazonas — (-16,81 p.p.)
Paraíba
[demais posições conforme dados apresentados no estudo]

Maior redução da taxa de extrema pobreza (p.p.)

Amazonas

Ataliba explica que a redução da pobreza observada de forma generalizada entre os Estados foi influenciada, em grande parte, pela reformulação do Bolsa Família, que elevou o valor do benefício no período, além do cenário macroeconômico marcado pela redução do desemprego e pelo aumento do salário mínimo.

O pesquisador ressalva que as pesquisas domiciliares realizadas pelo IBGE apresentam limitações para captar os rendimentos da parcela mais rica da população.

No ano passado, o técnico do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Pedro Herculano de Souza também publicou um estudo sobre a relação entre renda, desigualdade e pobreza no Brasil.

Entre 2021 e 2024, segundo a pesquisa, as pessoas que estavam na linha da pobreza foram mais beneficiadas pelo aumento da renda. Esse fator respondeu por 69,4% da redução da taxa, enquanto a diminuição da desigualdade contribuiu com os 30,6% restantes.

Entre as pessoas em situação de extrema pobreza, porém, a redução da desigualdade teve maior participação na queda da taxa. Segundo o estudo, esse fator respondeu por 63,1% da redução da extrema pobreza, enquanto o aumento da renda contribuiu com os outros 36,9%.

A pesquisa também aponta o mercado de trabalho e as transferências assistenciais como mecanismos relevantes para a redução da extrema pobreza no período. Apesar de também utilizar dados da Pnad Contínua, a metodologia empregada é diferente da pesquisa da FGV Ibre, considera outro período e abrange o país como um todo.

Na avaliação de Souza, o crescimento econômico é fundamental, mas a redução da pobreza também depende da forma como os ganhos de renda são distribuídos. Ele defende a combinação entre crescimento econômico, inflação controlada e baixo desemprego com políticas públicas articuladas.

“Precisamos de um rol de políticas de curto, médio e longo prazo que atue de forma articulada e complementar. No curto e no médio prazo, isso exige o aperfeiçoamento contínuo das transferências monetárias assistenciais em conjunto com outras medidas em áreas como transporte, acesso a cuidados infantis e saneamento básico. No longo prazo, o destaque vai para os investimentos em educação”, afirma Souza.

Segundo o economista, alguns Estados apresentaram avanços maiores também por adotarem políticas públicas próprias voltadas ao enfrentamento da pobreza.

Ataliba também defende que o país avance para uma “nova geração de políticas”, com acompanhamento mais individualizado das famílias em situação de pobreza e extrema pobreza.

“Nós estamos estagnados no Brasil em termos de políticas sociais. Nós não temos grandes inovações. Se resumiu à transferência do Bolsa Família. A gente precisa avançar para uma nova geração de políticas sociais, de acompanhamento mais de perto para entender as vulnerabilidades daquelas famílias, saber como o governo federal junto com os Estados pode, diante daquelas vulnerabilidades, ajudar a família a superar a vulnerabilidade. Esse olhar para a família mais vulnerável é o que a gente precisa avançar no Brasil”, afirma Ataliba.