Amélio Cayres, de fiador da base à mudança de atuação após ser retirado da sucessão estadual
16 abril 2026 às 16h59

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A atuação do presidente da Assembleia Legislativa do Tocantins, Amélio Cayres, na tramitação do projeto de até R$ 56 milhões do BNDES marca a primeira consequência prática da mudança de posição adotada após sua saída do eixo político do governo.
Até o afastamento do governador Wanderlei Barbosa, Amélio exercia papel central na sustentação da base governista. Com ampla maioria na Casa, o executivo avançava pautas com baixa resistência, e a presidência da Assembleia atuava para garantir andamento e votação de matérias estratégicas.
Durante a crise provocada pelo afastamento do chefe do executivo por decisão do STJ, Amélio não rompeu com o governo. Mesmo sob pressão política e com pedidos de impeachment protocolados, optou por não dar seguimento às medidas. Posteriormente, em discurso público, afirmou que a decisão foi pessoal, baseada em convicções próprias, e não resultado de articulação institucional.
A mudança ocorre após o retorno de Wanderlei ao cargo, em dezembro, quando o desenho da sucessão estadual é redefinido. Amélio, até então apontado como nome do grupo para a disputa ao governo, perde espaço com a consolidação de um projeto em torno da senadora Dorinha Seabra (UB).
Sem avanço nas tratativas para compor a majoritária, o presidente da Assembleia deixa o Republicanos na janela partidária e migra para o MDB, acompanhado de parlamentares que também se afastaram da base. Entre eles, deputados que haviam sido eleitos em 2022 com apoio do próprio grupo governista.
A reconfiguração altera o equilíbrio interno da Casa. A oposição, que até então se limitava a um único parlamentar, passa a reunir nove dos 24 deputados e assume o controle de comissões estratégicas, como Constituição e Justiça, Finanças e Defesa do Consumidor.
É nesse cenário que ocorre o bloqueio do projeto do BNDES. A proposta avançou na Comissão de Constituição e Justiça, mas não teve andamento na Comissão de Finanças, presidida por Olyntho Neto, hoje fora da base. Sem análise dentro do prazo, a matéria ficou impedida de seguir.
A condução do episódio evidencia a mudança de atuação da presidência da Assembleia. Diferentemente do período anterior, não houve articulação para destravar a pauta, mesmo diante do risco de perda de prazo para acesso aos recursos.
Nos bastidores, o movimento é lido como reflexo direto da nova posição política de Amélio, hoje inserido em um bloco que reúne deputados ligados a projetos distintos para 2026, entre eles os grupos do vice-governador Laurez Moreira e do deputado Vicentinho Júnior.
O episódio evidencia que a relação entre executivo e legislativo deixou de ser automática. A atuação do presidente da Assembleia, antes voltada à sustentação da base governista, passa a refletir uma lógica própria, condicionada ao novo cenário político e à disputa pela sucessão estadual.
