O voto feminino na berlinda
27 julho 2026 às 15h35

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Juliete Oliveira 1
Há ideias que deveriam ter envelhecido em silêncio. Depois de derrotadas pela história, deveriam permanecer guardadas em alguma gaveta escura do passado, ao lado das coisas das quais uma sociedade aprendeu a se envergonhar.
A defesa da retirada do direito de voto das mulheres é uma delas.
No entanto, em julho de 2026, essa tese voltou a circular no debate público brasileiro, apresentada ora como provocação, ora como opinião política. Talvez seja apenas ruído. Mas certos ruídos não podem ser desprezados, porque testam os limites da democracia: primeiro, transformam o absurdo em piada; depois, fazem da piada uma opinião; por fim, tentam apresentar a opinião como alternativa possível.
Em 24 de fevereiro de 1932, o Código Eleitoral reconheceu às mulheres brasileiras o direito de votar e de serem votadas. A Constituição de 1934 incorporou essa conquista, embora o voto feminino ainda fosse facultativo em algumas situações. Somente em 1965 a obrigatoriedade foi equiparada à dos homens. Em 2026, portanto, completamos 94 anos de um direito que não caiu do céu nem nasceu da generosidade masculina. Foi conquistado por décadas de organização, enfrentamento e insistência das mulheres.
Noventa e quatro anos depois, ainda precisamos perguntar: a quem interessa tornar as mulheres eleitoralmente invisíveis?
A pergunta pode parecer retórica diante dos inúmeros estudos que demonstram a importância da presença feminina nos espaços de poder. Os números brasileiros, entretanto, fazem com que ela continue dolorosamente necessária.
Segundo o Censo de 2022, as mulheres representam 51,5% da população brasileira. Apesar disso, ocupam apenas 88 das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados, aproximadamente 17% do total. No Senado Federal, são 16 mulheres entre 81 integrantes. Nas eleições de 2022, somente duas mulheres foram eleitas governadoras. No âmbito municipal, pouco mais de 13% das prefeituras estão sob o comando feminino.
Prefeitas, governadoras, senadoras e deputadas ainda são quase exceções estatísticas em um país majoritariamente feminino.
Não estamos diante de falta de capacidade, formação ou interesse das mulheres pela vida pública. Estamos diante de estruturas que dificultam seu ingresso na política, limitam o financiamento de suas campanhas, naturalizam a sobrecarga dos cuidados, toleram agressões e frequentemente tratam candidaturas femininas como mera formalidade para o cumprimento das cotas eleitorais.
A pesquisadora Carla Akotirene lembra que racismo e sexismo caminham juntos. Quando raça, classe, território, sexualidade, deficiência ou idade se associam ao gênero, as portas da política tornam-se ainda mais estreitas. A mulher que o sistema tenta retirar de cena não é uma figura abstrata. Ela tem cor, renda, endereço, corpo e história.
A Lei nº 14.192, de 4 de agosto de 2021, estabeleceu mecanismos para prevenir e combater a violência política contra as mulheres. A legislação alcança atos de assédio, constrangimento, humilhação, perseguição e ameaça destinados a impedir ou dificultar a participação política feminina. É um marco importante. Mas nenhuma lei transforma, sozinha, uma cultura construída durante séculos. Por isso, o enfrentamento da invisibilidade política não pode começar apenas quando uma mulher registra sua candidatura. Deve começar muito antes: dentro de casa, nas escolas, nos partidos, nas igrejas, nas universidades, nas redações e nos locais de trabalho.
Precisamos falar em letramento de gênero desde os anos iniciais da educação. Não como palavra de ordem, mas como formação para a cidadania. Ensinar que meninas e meninos possuem os mesmos direitos; que liderança não tem sexo; que o cuidado deve ser compartilhado; que nenhuma violência contra as mulheres pode ser naturalizada; e que a igualdade não retira direitos de ninguém — apenas amplia a democracia.
Atacar o voto feminino não significa somente questionar o direito de uma mulher escolher seus representantes. Significa tentar recolocá-la sob tutela. É dizer que sua consciência política vale menos, que sua escolha precisa ser supervisionada e que sua presença pública deve novamente caber dentro dos limites estabelecidos por outros.
Quando se ameaça o direito político das mulheres, toda a democracia é colocada na berlinda.
A participação feminina nos processos de decisão não é concessão, delicadeza institucional ou simples questão de representatividade. É condição para que a democracia expresse verdadeiramente a sociedade que pretende governar. Quando uma mulher ocupa um espaço de poder, outras passam a reconhecer aquele lugar como possível. Quando muitas mulheres chegam, não muda apenas a paisagem: mudam as perguntas, as prioridades e as formas de decidir.
Gosto de acreditar que também atravessaremos este tumulto. Não porque os direitos sejam irreversíveis — a história já nos ensinou que não são —, mas porque conhecemos a força das mulheres que vieram antes de nós. Mulheres que escreveram quando não queriam que lessem, falaram quando lhes exigiam silêncio e votaram quando lhes negavam cidadania.
Adélia Prado escreveu: “Mulher é desdobrável. Eu sou”.
Somos.
Mas que ninguém confunda nossa capacidade de nos desdobrar com disposição para abrir mão, daquilo que conquistamos.
- Escritora, cronista e poeta ↩︎
