Reunião pedagógica é tudo igual (faltou combinar com os alunos)
30 julho 2026 às 14h30

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Por Fernando Maciel Vieira
Agosto chegou, e com ele a segunda estreia do ano letivo: aquela volta às aulas que ninguém anuncia com tanto alarde quanto a de fevereiro, mas que carrega o mesmo roteiro decorado. Recesso encerrado, mochila de novo nas costas, e lá vamos nós outra vez para a reunião pedagógica que abre o semestre — a mesma pauta, o mesmo tom solene, como se o calendário letivo tivesse memória curta e a escola, paciência infinita.
Há um ditado que minha coordenadora repetia com a sabedoria de quem nunca pisou numa sala de coordenação: “em casa de ferreiro, espeto de pau.” Pois bem: em escola de educador, discurso de ferro e prática de isopor. Falamos de metodologias ativas, de protagonismo do aluno, de educação 4.0, de neurociência aplicada à aprendizagem — tudo isso numa sala com carteira enfileirada, giz (ou pincel, que já é um upgrade e tanto) e um projetor que trava no mesmo slide desde fevereiro.
Rubem Alves, que entendia de escola mais do que muito gestor entende de planilha, dizia que a educação devia ensinar a prestar atenção, não a decorar. Só que ninguém prestou atenção nele. A reunião pedagógica virou o que Paulo Freire chamaria de “educação bancária” às avessas: em vez de depositar conteúdo no aluno, depositamos discurso no professor, na esperança de que ele saia dali diferente. Ele não sai. Ele sai com uma pasta cheia de slide impresso e a vontade de tomar um café mais forte, agora com o agravante de já estar na metade do ano e com o mesmo cansaço acumulado do primeiro semestre.
E aqui mora a ironia mais fina de tudo: gastamos um turno inteiro discutindo mudanças de postura, ferramenta, abordagem — para um público, o aluno, que muitas vezes não pediu nada disso. Não porque seja preguiçoso ou desinteressado por natureza, mas porque, como bem lembrou o pensador argentino Estanislao Antelo, a escola insiste em tratar o desejo de aprender como algo que se impõe, não como algo que se desperta. Resultado: adulto planejando aula revolucionária para um aluno que só quer saber se vai ter prova — e que, em agosto, ainda está tentando lembrar onde guardou o material do primeiro semestre.
Como diz o povo, “quem não quer ser lobo, não veste a pele” — e não adianta vestir o aluno com metodologia de ponta se, no fundo, ele só está ali cumprindo tabela, tanto quanto o professor que apresenta o slide.
Existe uma categoria específica de cansaço que só quem já sentou numa reunião pedagógica conhece: o cansaço de debater hipótese. Discutimos avaliação formativa sabendo que o boletim continua bimestral. Discutimos aula invertida sabendo que metade da turma não tem internet em casa. Discutimos indisciplina como se fosse resolvida com um powerpoint e não com estrutura, tempo e gente suficiente para cuidar de gente. E, no retorno de meio de ano, discutimos tudo de novo, como se o primeiro semestre não tivesse deixado nenhuma resposta — só mais uma lista de boas intenções para o segundo.
O escritor português Miguel Esteves Cardoso tem uma frase que cabe como luva: escrever sobre o óbvio é um exercício de coragem, porque o óbvio é sempre o que mais incomoda dizer em voz alta. E o óbvio, aqui, é simples: planejamento sem escuta é ensaio de teatro sem plateia. Bonito, ensaiado, decorado — e vazio.
Há também o velho “farinha pouca, meu pirão primeiro”: cada área quer seu espaço na pauta, sua urgência, seu projeto interdisciplinar, e a reunião vira um mosaico de boas intenções isoladas, nenhuma delas testada contra a pergunta mais simples de todas — o aluno quer isso? Não é populismo pedagógico perguntar; é o mínimo de honestidade que falta na sala.
Não é para acabar com a reunião pedagógica — seria ingenuidade do tamanho do problema que ela tenta resolver. É para perguntar por que ela continua sendo, semestre após semestre, um ensaio geral de uma peça que nunca estreia. Bell hooks escreveu que ensinar é um ato que exige risco: o de sair do roteiro, o de admitir que não se sabe tudo, o de escutar antes de planejar. Reunião pedagógica que não escuta o aluno é discurso sem interlocutor — é, como se diz, “conversa de cego com surdo.”
Talvez o primeiro passo — ironicamente o mais simples de todos, o que nenhuma metodologia ativa substitui — seja perguntar ao aluno, antes de qualquer slide, o que ele gostaria que fosse diferente neste segundo semestre. Pode ser que a resposta caiba num recreio maior, numa aula menos monótona, num professor menos exausto. Não precisa de neurociência para isso. Precisa só de escuta — a ferramenta pedagógica mais barata e mais abandonada que existe.
No fim, talvez a reunião pedagógica de agosto não precise de outro tema revolucionário. Precise só parar de fingir que fala com o aluno quando, na verdade, só fala sobre ele.
