Por Fernando Maciel Vieira

Existe um som que nenhum professor confunde com outro: é o barulhinho seco do calendário virando julho para agosto. Pode ser o vento, pode ser o coração, mas é sempre acompanhado da mesma sensação — um misto de pavor e resignação que nenhum manual de psicologia batizou ainda, mas que todo educador reconhece na hora. É o som do recreio acabando. Só que, dessa vez, o recreio dura dois meses e se chama férias.

Convenhamos, leitor: ninguém aprecia o valor do descanso como quem sabe exatamente o tamanho do vulcão que vai reencontrar do outro lado dele. Os últimos dias de férias do professor não têm nada de relaxante — são, na verdade, um velório antecipado, com direito a insônia, a checagem obsessiva do diário de classe e àquela pergunta existencial que ronda a mente às três da manhã: “será que ainda sei lecionar, ou isso também as férias levaram?”. Albert Camus escreveu sobre Sísifo, o sujeito condenado a empurrar uma pedra montanha acima só para vê-la rolar de novo, eternamente. Camus tinha razão em quase tudo, menos numa coisa: Sísifo, definhando ali sozinho com sua pedra, não tinha turma de trinta e cinco alunos, não tinha grupo de pais no WhatsApp, não tinha plataforma digital pedindo senha nova toda semana. Sísifo, convenhamos, tirou a mais fácil.

Porque a sala de aula, hoje, virou uma espécie de arena onde o professor entra armado apenas de giz, boa vontade e uma dose cavalar de otimismo raso — desse otimismo que insiste em sobreviver apesar de tudo o que já viu. E lá dentro, o improvável é a regra: o wi-fi que não pega, o projetor que trava bem na hora do vídeo motivacional, o aluno que grava tudo para postar com legenda debochada, e a direção que pede “só mais um relatório” enquanto o sinal do intervalo já tocou três vezes. Franz Kafka nunca deu aula, mas se tivesse dado, teria economizado décadas de inspiração: bastava observar de perto uma reunião pedagógica para entender, na prática, o que é um labirinto burocrático sem saída visível. “O Processo” é, no fundo, um professor tentando emitir um boletim no sistema que caiu.

E não pense, leitor, que estou exagerando por efeito. É exagero, sim — mas do tipo que só existe porque a realidade primeiro exagerou comigo. Rubem Alves, esse educador brasileiro que sabia rir da própria dor com uma elegância quase suspeita, dizia que escola boa é a que faz cócegas na curiosidade e não a que afoga a criança em conteúdo. Pois bem: alguém avisa esse recado para o calendário escolar, que insiste em empilhar prova sobre prova como quem empilha tijolo em muro de presídio? A curiosidade, coitada, mal consegue respirar antes de ser sufocada por mais uma apostila.

Se você nunca foi professor, talvez ache que estou brincando quando digo que voltar às aulas exige mais coragem do que qualquer discurso motivacional de segunda-feira. Mas pergunte a qualquer um que já pisou numa sala depois de dois meses de silêncio: é como voltar ao ringue sem saber se o adversário aprendeu boxe nas férias. Edgar Morin fala da complexidade como algo que tece junto — os fios da vida, do conhecimento, do imprevisto. Ele estava certo, claro, mas duvido que tivesse em mente uma sala de quarenta alunos, três smartphones ligados escondidos, um ventilador quebrado e uma coordenação pedindo “criatividade” no meio de um calor de quarenta graus. Complexidade, aqui, é sinônimo de milagre cotidiano.

E ainda assim — e é aqui, leitor, que a piada precisa parar um instante para respirar — ainda assim o professor volta. Todos os anos. Sem medalha, sem tapete vermelho, sem post nas redes celebrando a coragem de quem enfrenta, literalmente, um turno inteiro sem saber se vai ser respeitado, ignorado ou agredido. Nietzsche falava do eterno retorno, essa ideia de viver a mesma vida indefinidamente e ter que dizer sim a ela, com toda a sua dor incluída. Pois o professor faz isso todo mês de fevereiro: encara o eterno retorno da sala de aula e, mesmo sabendo exatamente o tamanho do desafio, diz sim de novo. Não porque seja fácil. Mas porque, no fundo, ainda acredita que vale a pena.

Talvez seja hora de pararmos de tratar essa coragem como coisa banal, leitor, como se fosse óbvio que alguém aceite recomeçar, ano após ano, uma batalha que a sociedade insiste em não reconhecer como batalha. Porque não é o professor que precisa de mais um curso de resiliência, de mais uma palestra motivacional pendurada num mural de sala dos professores. É o sistema inteiro que precisa de vergonha na cara — de valorizar, de estruturar, de proteger quem segura, com uma mão só, o futuro de um país inteiro. Enquanto isso não acontecer, seguiremos assistindo ao mesmo espetáculo: o professor virando as costas para a praia, arrumando a mochila, e caminhando, com a cabeça baixa e o coração meio partido, de volta para a pedra que a sociedade insiste em empurrar morro abaixo todo santo ano.

Então, se cruzar com um professor por aí nesses últimos dias de férias, olhando o horizonte com aquele olhar de quem está se despedindo de algo precioso, não pergunte se ele está ansioso para voltar. Pergunte, sim, o que falta para essa volta parar de doer tanto. Porque água mole em pedra dura, tanto bate até que fura — e o professor, esse teimoso incorrigível, já bateu tanto, por tanto tempo, que talvez seja a própria sociedade quem devesse, finalmente, começar a rachar