Fernando Maciel Vieira*

A psicanalista Maria Rita Kehl, ao estudar a depressão como sintoma social e não apenas individual, nos dá uma pista incômoda: talvez o cansaço do professor não seja falha pessoal, mas espelho fiel de uma sociedade que trocou o sentido pelo desempenho, a formação pela meta, o aluno pelo número no boletim de resultados. O professor não está doente por fraqueza; está doente porque é o ponto de maior fricção entre um mundo que mudou de velocidade e uma instituição que insiste em rodar no ritmo do século passado, com salário do século retrasado.

Comecemos pelo medo, porque é dele que se fala menos e é ele que mais mata devagar. Não falo do medo abstrato, mas do medo concreto: o medo do celular ligado gravando a aula para viralizar fora de contexto, o medo do pai que chega gritando porque o filho levou uma advertência, o medo — cada vez mais nu, cada vez menos hipotético — de que a discordância política vire denúncia, e a denúncia vire processo. O psicanalista Christian Dunker tem uma expressão preciosa para isso: ele fala do mal-estar contemporâneo como um sintoma que perdeu a vergonha de aparecer em praça pública. Pois bem: o professor é hoje o sintoma mais exposto da educação brasileira, o corpo que recebe, sem anestesia, tudo aquilo que a sociedade não quer resolver em casa, no Congresso ou em si mesma.

Depois vem a solidão, essa companheira fiel que nenhum grupo de WhatsApp da escola consegue disfarçar. Estar cercado de trinta e cinco adolescentes por horas diárias e, ainda assim, ser o ser humano mais sozinho do prédio é uma contradição que só a docência consegue produzir com tamanha elegância. O italiano Franco “Bifo” Berardi descreveu bem esse paradoxo da hiperconexão: nunca estivemos tão conectados e nunca fomos tão incapazes de nos tocar de verdade. O professor manda mensagem no grupo pedagógico, recebe emoji de coração, e continua absolutamente só diante do diário de classe, dessa relíquia burocrática que exige dele ser, ao mesmo tempo, psicólogo, assistente social, pai postiço, terapeuta ocupacional e, vez ou outra — quando sobra tempo entre um recreio e outro — professor.

E então a frustração, que é onde a ironia da profissão atinge seu ponto mais alto de comédia trágica. Formamo-nos para transformar sociedades e terminamos preenchendo planilha de frequência às 23h de domingo. Sonhamos com Paulo Freire e esbarramos, todos os dias, num sistema que trata educação como item de prestação de contas e não como projeto civilizatório. A filósofa Márcia Tiburi, com sua ironia certeira, costuma lembrar que vivemos tempos em que pensar virou ato de resistência quase heroico — e o professor, goste ele ou não, é obrigado a ser esse herói de meio período, sem hidratação adequada e sem reconhecimento salarial condizente.

Há décadas o pesquisador Wanderley Codo já havia flagrado, num estudo que hoje deveria ser leitura obrigatória em qualquer secretaria de educação, o tamanho do adoecimento psíquico entre professores brasileiros — burnout, síndrome de esgotamento, corpo e mente cobrando fatura de uma profissão que exige entrega total e devolve, quase sempre, desconfiança institucional. E o que mudou desde então? Trocamos o giz pelo aplicativo, a lousa pelo datashow, e a exaustão continua exatamente onde estava: entranhada, crônica, naturalizada como parte do ofício, como se sofrer fosse pré-requisito da vocação.

E aqui a sátira precisa parar de rir baixinho e engasgar, porque a piada, no fundo, não tem graça nenhuma: um país que trata seus professores como mão de obra descartável está, com requintes de burocracia, cavando a própria cova intelectual. Toda sociedade que humilha quem ensina está, silenciosamente, ensinando às próximas gerações que o conhecimento vale pouco e o cansaço vale menos ainda.

Se há algo de esperançoso nesse retrato sombrio — e talvez seja essa a única piada que ainda dá vontade de contar —, é que o professor, mesmo exausto, mesmo assombrado pelo medo, mesmo afundado na solidão mais lotada do mundo, continua, contra toda lógica de mercado, entrando em sala. Não por ingenuidade. Por teimosia. E teimosia, no Brasil de hoje, é quase um ato revolucionário.

* Fernando Maciel Vieira é professor da rede estadual de ensino.