Otávio Fraz
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Cerca de 80% das empresas rurais brasileiras ainda são comandadas por seus fundadores, e menos de 20% delas chegam à terceira geração sob o comando da mesma família, segundo dados do Censo Agropecuário do IBGE. Entre 2012 e 2023, a presença de jovens de 18 a 29 anos no campo caiu 13%, enquanto o número de produtores mais velhos cresceu quase na mesma proporção. Esses números costumam ser lidos como um alerta sobre o esvaziamento do campo. Talvez o dado mais importante esteja escondido atrás deles: quantas dessas famílias perderam a empresa rural simplesmente porque nenhum herdeiro quis, ou pôde, assumir o trator.

Essa é uma pergunta mal colocada. A continuidade de uma empresa rural não depende de um filho ou neto trabalhando fisicamente na terra. Um herdeiro pode seguir carreira na cidade, na advocacia, na medicina, na engenharia, e ainda assim participar ativamente da propriedade da família, desde que exista uma estrutura capaz de sustentar essa participação. Regimento interno, acordo de sócios, holding rural e plano de sucessão formal são os instrumentos que permitem separar quem administra o dia a dia de quem detém a propriedade e recebe os resultados. Com essas regras escritas e testadas em vida, a fazenda deixa de depender da presença física do herdeiro e passa a funcionar como qualquer outra empresa profissionalizada.

Profissionalizar também significa transformar decisões que antes eram tomadas na mesa de almoço, por impulso ou por hierarquia de idade, em um processo contínuo. Um conselho de família, com reuniões periódicas, define com antecedência quem participa da gestão, quem recebe apenas os resultados financeiros, como funciona a entrada de genros, noras e netos, e quais critérios definem remuneração e distribuição de lucros. Essa rotina de governança evita que cada Natal em família vire uma negociação improvisada sobre o futuro da fazenda, e coloca no lugar disso uma agenda clara, revisada a cada ano.

Essa mesma inteligência de gestão abre caminhos que muitas famílias nem cogitam. Quando nenhum herdeiro quer, ou consegue, tocar a operação, a fazenda pode ser conduzida por um gestor profissional contratado, com a família mantendo a propriedade e a supervisão estratégica, como já acontece em empresas de outros setores. O patrimônio também pode crescer para além da porteira: arrendamento estruturado, participação em agroindústria, prestação de serviços especializados e novas frentes de negócio ligadas à tecnologia do campo permitem que a nova geração continue ligada à origem da família mesmo trabalhando, no dia a dia, em áreas completamente diferentes da lavoura.

Essa organização deixou de ser um luxo. A modernização acelerada do agronegócio está elevando o custo de operar sem ela, e pequenos e médios produtores que seguem administrando no improviso correm risco real de perder competitividade. Sem planejamento, cada imprevisto, uma praga, a quebra de um equipamento, uma disputa entre sócios, o falecimento de quem centralizava as decisões, vira uma emergência resolvida com dinheiro que deveria estar na produção. O produtor passa a gastar mais apagando incêndios do que investindo, e isso esmaga a margem que sobra no fim do ano.

O lado bom dessa história é que ela está inteiramente ao alcance de quem decide começar. Colocar essas regras no papel, ainda em vida e com toda a família reunida, abre a chance real de transformar o que uma geração construiu em algo maior do que ela própria, capaz de sustentar netos e bisnetos mesmo quando eles escolherem outros caminhos. O agro brasileiro já provou que sabe produzir. A geração atual tem, hoje, a oportunidade de provar que também sabe multiplicar o que recebeu, e entregar às próximas gerações não apenas terra, mas um legado organizado para crescer.

  1. Otávio de Oliveira Fraz é advogado especialista em Direito Tributário e Arbitragem, professor e palestrante, com certificação executiva em vendas de alto impacto pela Universidade Central do Missouri. Sócio administrador do escritório Fraz Advocacia — Advogados Associados. ↩︎