Artigo de Opinião
Entre diagnósticos conhecidos e promessas recorrentes, o país segue ignorando evidências sobre o que realmente melhora a educação e mantém professores e alunos sustentando o sistema apesar dele
O caso do romance brasileiro tocantinense
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Por Fernando Maciel Vieira
Existe uma contradição tão escandalosa, tão flagrante, tão despudoradamente exposta à luz do dia, que só mesmo a desfaçatez organizada de certos líderes políticos e religiosos seria capaz de praticá-la sem o menor constrangimento. Na segunda-feira, o professor é doutrinador, a universidade é antro de baderna, o conhecimento científico é suspeito e o recurso público investido em pesquisa é desperdício de dinheiro do trabalhador. Na sexta-feira, quando a pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, apresenta ao mundo um tratamento promissor para a tetraplegia e lesões na medula espinhal, esse mesmo grupo aparece com o peito estufado, como quem descobre de repente que sempre amou a escola. A memória seletiva é uma virtude muito cultivada por quem não tem outra.
Rir seria a resposta natural. Seria, se não fosse tão sério. Se não fossem vidas paralisadas esperando por aquilo que a universidade pública — aquela que pedem para cortar, para calar, para privatizar — está produzindo em silêncio, entre pilhas de artigos científicos que esses mesmos líderes jamais abriram. A Tatiana Coelho não descobriu nada apesar do sistema. Ela descobriu por causa dele. Por causa do professor que a formou, da universidade que a acolheu, do financiamento público que sobreviveu a cada discurso que tentou eliminá-lo. Há uma ironia cruel nisso tudo: a cura que comove o país foi construída exatamente no lugar que certos poderosos nunca pararam de atacar.
Mas por que atacam? Essa é a pergunta que merece ser feita com cuidado, sem pressa, sem o conforto fácil das respostas rasas. Porque atacar professor dá trabalho retórico zero e dividendo político máximo. O professor não tem assessor de imprensa. Não tem verba de campanha. Não tem horário eleitoral. Tem giz — ou o equivalente digital — e tem uma sala cheia de gente que ainda não decidiu o que pensar. E é exatamente isso que aterroriza. O professor não vende certezas prontas. Ele faz perguntas. Ensina a duvidar. Apresenta evidências que às vezes contrariama narrativa do palanque. Para quem sobrevive politicamente da fé cega e do medo bem administrado, um professor que ensina a pensar é, tecnicamente, um inimigo de modelo de negócios.
Hannah Arendt, que entendeu o totalitarismo melhor do que qualquer pessoa que preferiu não entendê-lo, escreveu que regimes autoritários sempre miram primeiro na educação — porque é lá que se forma o cidadão capaz de reconhecê-los. Não é coincidência histórica. É estratégia. Quando um líder começa a atacar sistematicamente professores, universidades e o conhecimento científico, ele não está fazendo crítica pedagógica. Ele está seguindo um roteiro que já foi ensaiado antes, em outros países, em outros idiomas, com os mesmos resultados devastadores. O manual é sempre o mesmo: desacredite quem pensa, valorize quem obedece, e chame isso de liberdade.
O caso da pesquisadora da UFRJ não é apenas uma história de ciência. É uma história de coerência — ou melhor, da absoluta falta dela. O mesmo grupo que passou anos dizendo que as universidades federais são celeiros de marxismo cultural e desperdício orçamentário agora compartilha a descoberta da professora Tatiana como se fosse um troféu da nação. Como se a UFRJ fosse, subitamente, uma instituição digna de orgulho. Como se o financiamento público à pesquisa fosse, repentinamente, um investimento legítimo. A pergunta que ninguém faz em voz alta mas todo mundo pensa é a mais simples possível: o que mudou? A universidade é a mesma. Os professores são os mesmos. O que mudou foi apenas a conveniência.
Nietzsche, que tinha pouca paciência para a hipocrisia organizada, diria que estamos diante de um ressentimento clássico: atacar aquilo que não se pode ser, não se pode comprar e não se pode controlar. O conhecimento genuíno é, por definição, incômodo para o poder que se sustenta na ignorância. Um povo que lê, questiona e compreende mecanismos de causa e consequência é um eleitorado difícil de conduzir pelo medo. Um povo que desconfia da ciência, que vê o professor como inimigo e a universidade como território estrangeiro, esse é um povo muito mais maleável. A matemática é cruel, mas é honesta.
E aqui chegamos no ponto mais delicado — e mais necessário — desta conversa. O que esses grupos fazem não é apenas incoerente. É estruturalmente totalitário. Não no sentido teatral da palavra, não nos tanques na rua e nas fogueiras de livros — embora a história mostre que isso vem depois. É totalitário na raiz: na tentativa de controlar o que se ensina, de determinar qual conhecimento é legítimo, de transformar o espaço educacional em território de disputa ideológica onde a ciência precisa pedir licença para existir. Quando um político decide o que um professor pode ou não dizer dentro de uma sala de aula, ele não está protegendo crianças. Ele está eliminando concorrência.
Os professores, convém lembrar, não escolheram ser símbolo de nada. Escolheram uma profissão que paga mal, exige muito, e oferece em troca a satisfação abstrata de ver alguém aprender algo. A Tatiana Coelho não passou anos de pesquisa sonhando em dar resposta a um debate político. Ela estava tentando fazer andar quem não pode andar. Estava fazendo exatamente o que a universidade existe para fazer: transformar recurso público em benefício humano concreto. Que essa conquista seja agora instrumentalizada pelos mesmos que tentaram inviabilizá-la é uma ironia que a própria história deveria ter vergonha de contar — mas conta, sem piscar.
O que fica, no fim dessa reflexão, não é raiva. É uma pergunta que cada leitor deve carregar para casa como se fosse uma conta a pagar: se você aplaudiu quando cortaram verba de pesquisa, se você riu quando chamaram professores de doutrinadores, se você compartilhou meme ridicularizando universidade federal — você também está aplaudindo a possibilidade de que a cura para a doença do seu filho, do seu pai, de você mesmo, nunca chegue a existir. Porque ela mora exatamente lá. Na sala que você fechou com tanto entusiasmo.
Talvez valha a pena, antes do próximo discurso, antes do próximo post, antes da próxima eleição, fazer uma pergunta honesta e incômoda: de quem, afinal, você tem medo? Do professor que ensina — ou da pessoa em que seu filho pode se tornar depois que aprender a pensar?
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