O anúncio da formação de um Super El Niño pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) preocupou governos, pesquisadores e produtores rurais em diferentes regiões do mundo. Considerado um dos fenômenos climáticos mais intensos da história recente, o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico pode provocar alterações significativas nos regimes de chuva e temperatura, com reflexos diretos sobre a economia e a produção de alimentos.

Na Amazônia, especialistas apontam para o risco de secas severas, redução dos níveis dos rios e aumento das queimadas. No Tocantins, estado localizado em uma das áreas mais sensíveis aos efeitos do fenômeno no Brasil, a preocupação também alcança o campo. A expectativa é de temperaturas acima da média e chuvas mais irregulares, cenário que pode comprometer o calendário agrícola, reduzir a produtividade de culturas como soja e milho e aumentar os custos da pecuária.

Para entender os possíveis impactos do Super El Niño sobre a agropecuária tocantinense e as estratégias que produtores podem adotar para reduzir riscos, o Jornal Opção Tocantins entrevistou o zootecnista e mestre Felipe Fabbri, consultor de mercado da Scot Consultoria. Ele explica como o fenômeno pode afetar lavouras, pastagens e a rentabilidade das propriedades rurais nos próximos ciclos produtivos.

As previsões indicam a atuação do El Niño. De que forma esse fenômeno pode afetar a agropecuária do Tocantins?

O Tocantins é um estado brasileiro localizado bem na região onde o El Niño tem os seus efeitos mais nítidos, que é a região mais ao Norte do Brasil. O efeito do fenômeno nessa região é tipicamente de temperaturas acima da média e precipitação mais irregular. Ou seja, os produtores precisam sim se preocupar com a atuação e se planejar para esse período.

Quais culturas agrícolas do estado tendem a ser mais sensíveis aos efeitos do El Niño? Há risco de atraso no plantio da safra 2026/2027 caso o período chuvoso comece mais tarde? Como temperaturas acima da média e chuvas irregulares podem impactar a produtividade de culturas como soja, milho, arroz e feijão?

A soja pode ser prejudicada em algumas frentes. Primeiro, o calor acima do normal durante o enchimento de grãos pode causar o abortamento de vagens e redução do potencial produtivo. Na sequência, a irregularidade de chuvas pode pegar a soja durante o enchimento de grãos. Terceiro, a irregularidade de chuvas também pode deslocar a janela de semeadura da soja, e aí vem o problema para o milho, que pode ter sua janela ideal de semeadura também deslocada. Se isso ocorrer, podemos ver migração de área de milho para o sorgo e, caso os produtores decidam por semear o milho mesmo assim, o risco climático torna-se maior. Para o arroz, a atividade no estado é majoritariamente realizada em sistemas irrigados – a irregularidade de chuvas e temperaturas mais elevadas podem diminuir o potencial produtivo ou aumentar os custos operacionais com a irrigação.

 Na pecuária, quais são os principais efeitos esperados sobre as pastagens, o desempenho dos animais e os custos de produção?

O potencial de suporte das pastagens tende a diminuir, o que fará com que o pecuarista precise focar mais na suplementação do gado; para as fêmeas durante a estação de monta, o atraso nas chuvas pode deslocar o momento de melhor escore, caso a suplementação não exista, e a oferta de bezerros pode chegar mais tarde no mercado nos próximos anos ou, até mesmo, menor, em função de diminuição de indicadores zootécnicos em meio ao desafio alimentar; para o recriador/invernista que trabalha com o confinamento, 2027, por conta do El Niño poderá marcar preços de alimentos (milho, principalmente), maiores por conta do que já citamos antes; além disso, a qualidade do boi magro que entrará no sistema poderá ser comprometida, a depender do modal produtivo prévio, elevando a necessidade de tempo dentro do confinamento para atingir os objetivos produtivos.

O produtor rural do Tocantins deve começar a adotar medidas preventivas desde já? Quais seriam as principais?

Sim, deve. Pensando em pecuaristas, por exemplo, a negociação antecipada de suplementos (diante de um cenário de incerteza de oferta de suplementos minerais) e já ir pensando no planejamento forrageiro do ciclo de 2027, levando em consideração os dados históricos que ele tem sobre a sua produção e anos de El Niño, poderá mitigar o risco.

Para os agricultores, analisar o comportamento de sua região também é fundamental, assim como o pecuarista. Analisar os dados e relacionar a outros momentos de El Niño para já ter um padrão do que ele pode esperar. Considerando as chuvas irregulares, usar cultivares mais precoce ou superprecoces, para diminuir uma pressão de chuvas mais irregulares dentro da região e manter a janela de semeadura dentro do ideal. Considerar uma migração parcial de áreas de milho para sorgo também é um cenário.

Existem tecnologias ou estratégias de manejo que ajudam a reduzir os prejuízos causados por um período mais seco?

Existem, um exemplo são as diferentes cultivares de soja e variedades de milho, que podem ser mais tolerantes a intempéries climáticas e riscos mais resistentes são uma opção. Estar atento às janelas de precipitação e condições climáticas na região, para tentar aproveitar oportunidades e melhores momentos.

Os pequenos produtores são mais vulneráveis aos impactos climáticos? Por quê?

São sim, sem dúvidas. eles possuem menor poder de barganha nas compras dos insumos, normalmente possuem um menor acesso à informação e capacitação e o risco torna-se maior.