Os dez deputados estaduais do Tocantins que foram alvos da Polícia Federal na segunda fase da Operação Fames-19, em setembro de 2025, declararam juntos R$ 45,61 milhões em patrimônio à Justiça Eleitoral para a disputa de 2026. O levantamento feito a partir dos registros do DivulgaCandContas, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), reúne os bens informados por Amélio Cayres, Claudia Lelis, Cleiton Cardoso, Ivory de Lira, Jorge Frederico, Léo Barbosa, Nilton Franco, Olyntho Neto, Valdemar Júnior e Vilmar de Oliveira.

O grupo corresponde aos dez parlamentares que tiveram gabinetes alcançados por mandados de busca e apreensão em 3 de setembro de 2025, quando a Polícia Federal voltou à Assembleia Legislativa do Tocantins pouco mais de um ano depois da primeira fase da Fames-19. Em parte dos casos, as ordens judiciais também chegaram às residências dos deputados. A operação, autorizada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), buscou aprofundar a investigação sobre suspeitas de desvio de recursos públicos destinados ao enfrentamento da pandemia de Covid-19 e sobre o possível uso de emendas parlamentares e recebimento de vantagens indevidas por agentes públicos e políticos.

As buscas produziram cenas que marcaram aquela manhã. A PF encontrou dinheiro em espécie em residências e veículos, recolheu celulares e documentos, apreendeu relógios, joias, armas e veículos e chegou a arrombar uma suíte depois que um parlamentar não abriu a porta. Um ano depois, já em nova eleição, os mesmos deputados voltaram a informar à Justiça Eleitoral a composição de seus patrimônios.

No topo da lista aparece Vilmar de Oliveira (PL), com R$ 14.510.200 declarados. Logo atrás está o presidente da Assembleia, Amélio Cayres (MDB), que neste ano disputa a vice-governadoria e informou R$ 14.463.126. Somados, os dois concentram R$ 28,97 milhões, cerca de 64% de todo o patrimônio declarado pelos dez alvos da PF.

Depois vêm Olyntho Neto (MDB), com R$ 4,47 milhões; Cleiton Cardoso (Republicanos), R$ 3,4 milhões; Nilton Franco (União Brasil), R$ 3,08 milhões; Léo Barbosa (Republicanos), R$ 2,23 milhões; Jorge Frederico (PSDB), R$ 1,97 milhão; Valdemar Júnior (MDB), R$ 970 mil; Ivory de Lira (PCdoB), R$ 310 mil; e Claudia Lelis (PV), com R$ 183,6 mil.

Vilmar: R$ 14,5 milhões e um rebanho de R$ 12 milhões

Vilmar de Oliveira | Foto: Aleto/Divulgação

A maior declaração entre os dez deputados é a de Vilmar de Oliveira. Dos R$ 14,51 milhões informados ao TSE, R$ 12 milhões correspondem a um rebanho de bovinos e bufalinos. O parlamentar também declarou 50% de uma fazenda em Campo Alegre, avaliados em R$ 1 milhão, uma caminhonete Hilux de R$ 320 mil e participações em empresas do setor gráfico.

Quando a PF esteve na residência de Vilmar, em setembro de 2025, os agentes recolheram documentos e mídias digitais. A operação também apreendeu um barco registrado em nome de uma empresa, mas apontado no relatório policial como declarado como propriedade do parlamentar.

Vilmar também teve o gabinete alcançado pela operação na Assembleia. À época, ocupava a primeira-secretaria da Mesa Diretora.

Amélio: R$ 14,46 milhões e R$ 25 mil em carro oficial durante busca

Amélio Cayres | Foto: Aleto/Divulgação

Amélio Cayres declarou R$ 14,46 milhões, diferença de menos de R$ 50 mil em relação ao patrimônio de Vilmar. Entre os bens aparecem imóveis rurais, máquinas e equipamentos agrícolas. Uma parte da Fazenda São João, em Palmas, foi declarada por R$ 2,2 milhões. A Fazenda 3 Irmãos, em Carrasco Bonito, aparece por R$ 1,34 milhão. O presidente da Aleto também declarou mais de R$ 4 milhões em cabeças de gado. Também constam uma escavadeira hidráulica de R$ 235 mil e um trator agrícola de R$ 286 mil.

Na operação de setembro de 2025, policiais também foram à residência de Amélio. Durante as buscas, encontraram R$ 25 mil em espécie dentro de um veículo oficial da Assembleia Legislativa. O dinheiro estava em uma sacola da própria Casa.

Segundo o relatório da PF ao qual o Jornal Opção Tocantins teve acesso, o automóvel, um Volkswagen Polo, estava sob a posse de Raul Cayres, filho do parlamentar e que neste ano busca uma vaga na Aleto. Ele declarou aos agentes que utilizava o veículo para fins particulares e, segundo o documento, não soube informar a origem do dinheiro encontrado.

Olyntho: dinheiro, dólares, euros, joias e relógios

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Olyntho Neto | Foto: Aleto/Divulgação

O terceiro maior patrimônio do grupo é o de Olyntho Neto, que informou R$ 4.476.127,19. A relação entregue ao TSE inclui uma Defender 110 avaliada em R$ 580 mil, apartamento de R$ 460 mil em Palmas, outro apartamento de R$ 130 mil, uma Fiat Strada de R$ 90 mil, consórcio e participação em imóvel rural.

O cumprimento do mandado contra Olyntho foi um dos episódios mais detalhados no relatório da PF. Segundo o documento, os policiais chegaram ao apartamento do deputado e encontraram a porta da residência aberta, mas a suíte estava trancada. Mesmo depois da identificação da equipe, o parlamentar não teria aberto a porta. Os agentes então a arrombaram.

Olyntho disse aos policiais que acreditava tratar-se de uma “brincadeira de amigos”, porque havia realizado uma festa no local na noite anterior.

Na suíte, a PF apreendeu R$ 64,4 mil em espécie, US$ 1 mil e € 4.970, além de três celulares, tablet, joias, arma de fogo e relógios de marcas como Rolex e Patek Philippe. Um assessor que estava no imóvel também teve o aparelho celular recolhido.

Os bens e valores foram apreendidos no cumprimento de ordem judicial. A apreensão, por si só, não estabelece a origem ilícita dos objetos ou do dinheiro.

Cleiton declara R$ 3,4 milhões

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Cleiton Cardoso | Foto: Aleto/Divulgação

Cleiton Cardoso informou patrimônio de R$ 3.401.000. Entre os bens declarados estão semoventes avaliados em R$ 560 mil, imóveis rurais, uma residência de R$ 480 mil e outros ativos.

A PF também cumpriu mandado na residência do parlamentar. Na ocasião, recolheu três celulares, entre eles um aparelho que, de acordo com o relatório, havia sido usado durante o período eleitoral. Os agentes também apreenderam um Honda HR-V 2025 registrado em nome de uma empresa ligada à família.

Cleiton, que era segundo vice-presidente da Assembleia à época, também teve o gabinete alcançado pela ação.

Nilton Franco declara R$ 3,08 milhões e R$ 100 mil em espécie

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Nilton Franco | Foto: Aleto/Divulgação

O deputado Nilton Franco declarou R$ 3,08 milhões em bens. A maior parte está concentrada em uma fazenda em São Félix, avaliada por ele em R$ 2 milhões.

A relação entregue ao TSE registra ainda 50% de um apartamento na ARSE 21, em Palmas, por R$ 700 mil, quatro lotes em Pium avaliados em R$ 280 mil e R$ 100 mil em dinheiro em espécie.

Nilton esteve entre os dez deputados que tiveram os gabinetes alvo da PF na Assembleia em setembro de 2025. Neste ano, o deputado voltou a encontrar a PF, desta vez para explicar a origem de R$ 900 mil apreendidos com ele.

Léo Barbosa tem R$ 2,23 milhões

Léo Barbosa | Foto: Aleto/Divulgação

Léo Barbosa declarou R$ 2.238.282. O maior item visível na declaração é um lote urbano avaliado em R$ 1.020.100. Também aparecem R$ 700 mil em quotas societárias, outros terrenos, aplicações e valores depositados em conta.

Filho do governador Wanderlei Barbosa, Léo é primeiro vice-presidente da Assembleia e na data da segunda fase da Fames-19 teve seu gabinete incluído entre os dez alcançados pelos mandados.

Jorge Frederico: R$ 1,97 milhão e buscas em duas cidades

Jorge Frederico | Foto: Aleto/Divulgação

O patrimônio declarado por Jorge Frederico soma R$ 1.978.000. Entre os bens informados à Justiça Eleitoral estão um Jeep Compass de R$ 230 mil, imóveis e propriedades rurais.

O cumprimento do mandado contra o deputado teve uma particularidade. Em Palmas, segundo o relatório policial, a busca não foi realizada inicialmente por erro no número do apartamento indicado para a diligência.

Em Araguaína, contudo, a PF cumpriu buscas relacionadas ao parlamentar e recolheu R$ 36 mil em espécie e € 1.855, além de dois veículos avaliados em mais de R$ 100 mil e agendas com anotações.

Valdemar Júnior: dinheiro em Hilux usada pelo gabinete

Valdemar Júnior | Foto: Aleto/Divulgação

Valdemar Júnior declarou R$ 970.098,57 ao TSE. Entre os itens informados estão apartamento parcelado avaliado em R$ 302,6 mil, R$ 76,1 mil em conta corrente, terrenos e outros ativos.

Na residência do parlamentar, durante a Fames-19, a Polícia Federal encontrou R$ 4.105 dentro de uma Hilux locada pela Assembleia Legislativa, além de R$ 570 em espécie no imóvel. Relógios e celulares também foram recolhidos.

Valdemar teve ainda o gabinete incluído entre os dez alvos da ação na sede do Legislativo.

Ivory declara R$ 310 mil

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Ivory de Lira | Foto: Arquivo pessoal

Ivory de Lira declarou R$ 310 mil, um dos menores patrimônios do grupo. A relação inclui três lotes avaliados em R$ 150 mil, um complexo industrial e serraria de R$ 80 mil, um terreno no Pará de R$ 55 mil e R$ 25 mil em dinheiro em espécie.

O deputado também teve o gabinete alvo de busca e apreensão. Na mesma investigação, a ex-deputada Luana Ribeiro relatou aos policiais que, quando assumiu o mandato como suplente de Ivory, assinou documentos em nome dele sem saber, segundo ela, do que se tratavam. A declaração consta do relatório policial e integra o material reunido pelos investigadores.

Claudia Lelis tem a menor declaração

Cláudia Lélis | Foto: Aleto/Divulgação

Na outra ponta da lista está Claudia Lelis, que declarou R$ 183.635,73. O valor informado ao TSE aparece integralmente como depósito bancário em conta corrente.

A deputada também teve o gabinete alcançado pela operação de setembro de 2025. Entre os dez parlamentares que disputam as eleições deste ano e foram alvos de buscas na Assembleia, Claudia apresenta a menor declaração patrimonial.

PF chegou a mais de 40% da Assembleia

A operação de 3 de setembro de 2025 atingiu dez dos 24 gabinetes da Assembleia Legislativa, ou 41,7% das cadeiras da Casa.

Foram alvos Amélio Cayres, Léo Barbosa, Cleiton Cardoso e Vilmar de Oliveira, então integrantes da Mesa Diretora, além de Claudia Lelis, Ivory de Lira, Jorge Frederico, Nilton Franco, Olyntho Neto e Valdemar Júnior.

A ação fazia parte da segunda fase da Fames-19 e ocorreu pouco mais de um ano depois da primeira etapa, deflagrada em agosto de 2024. As investigações buscavam esclarecer a destinação de recursos públicos relacionados à compra de cestas básicas e frangos congelados durante a pandemia.

Documentos da investigação obtidos pelo Jornal Opção Tocantins apontaram que deputados e ex-deputados destinaram emendas para empresas que passaram a ser investigadas. Segundo o material, R$ 38,27 milhões em emendas parlamentares foram repassados às fornecedoras investigadas, dentro de um conjunto maior de transferências que também envolveu recursos do Fundo Estadual de Combate e Erradicação da Pobreza.

Entre os dez deputados que tiveram gabinetes alvo das buscas, Valdemar Júnior havia destinado R$ 3,5 milhões às empresas investigadas; Olyntho Neto, R$ 3,2 milhões; Amélio Cayres, R$ 2,57 milhões; Jorge Frederico, R$ 2,2 milhões; Cleiton Cardoso, R$ 2,05 milhões; Léo Barbosa, R$ 1,89 milhão; Claudia Lelis, R$ 1,68 milhão; Vilmar de Oliveira, R$ 1,6 milhão; Ivory de Lira, R$ 1,55 milhão; e Nilton Franco, R$ 1 milhão.

As investigações tramitam sob sigilo no Superior Tribunal de Justiça. Por esse motivo, quando os mandados foram cumpridos, a própria Assembleia informou que sua Procuradoria-Geral não havia tido acesso aos autos e não conhecia os fundamentos individualizados das ordens contra cada parlamentar.

A Casa afirmou, naquela ocasião, que prestou colaboração ao STJ e à Polícia Federal e disponibilizou equipamentos, documentos e informações solicitados durante o cumprimento dos mandados.

Agora, quase um ano depois das buscas, os dez voltam a aparecer juntos por outro registro oficial: as declarações patrimoniais apresentadas ao TSE para as eleições de 2026. De R$ 183 mil a R$ 14,5 milhões, os bens informados pelo grupo somam R$ 45.610.469,49