A eleição para o governo do Tocantins caminha para um cenário curioso. A pré-candidata mais forte do ponto de vista estrutural não necessariamente aparece em posição suficiente para encerrar a disputa no primeiro turno. E justamente essa possibilidade faz com que os movimentos dos grupos que hoje ocupam a segunda prateleira da corrida eleitoral ganhem relevância antecipada.

A senadora Dorinha Seabra (União Brasil) reúne, neste momento, os principais ativos da sucessão estadual. Conta com o apoio declarado do governador Wanderlei Barbosa (Republicanos), lidera a federação União Progressista, que terá um dos maiores fundos eleitorais do país, concentra boa parte da base governista na Assembleia Legislativa e possui uma ampla rede de prefeitos construída ao longo dos mandatos de deputada federal e senadora.

Nos bastidores da política estadual, aliados trabalham com a expectativa de que mais da metade dos 139 prefeitos tocantinenses esteja vinculada ao projeto. A base também reúne nomes influentes da bancada federal, como Eduardo Gomes (PL), Carlos Gaguim (União Brasil), Eli Borges (Republicanos) e Ricardo Aires (Republicanos), além da recente chegada do ex-prefeito de Araguaína Ronaldo Dimas (Podemos).

A robustez do grupo, porém, não eliminou uma variável que costuma decidir eleições estaduais: o segundo turno.

As pesquisas divulgadas até aqui colocam Dorinha na liderança, mas sem uma margem que permita tratar a vitória em primeiro turno como cenário consolidado. Isso abre espaço para uma disputa paralela: quem chegará ao segundo turno contra ela.

Hoje, o deputado federal Vicentinho Júnior (PSDB) parece ocupar com mais consistência esse espaço. A aliança com o presidente da Assembleia Legislativa, Amélio Cayres (MDB), e com o deputado federal Alexandre Guimarães (MDB), alterou o desenho da disputa. Amélio e Alexandre não apenas levaram consigo o MDB para o projeto tucano, mas também abriram a Vicentinho espaços políticos em regiões onde sua influência era mais restrita, ampliando o alcance da pré-campanha entre prefeitos, vereadores e lideranças municipais.

O MDB, que não possuía representação relevante na Assembleia, passou a reunir uma bancada própria sob a liderança de Amélio. Ao mesmo tempo, Vicentinho preservou relações construídas em municípios onde mantém influência que resultam dos anos de mandato federal. O resultado é a formação de um bloco que não possui a dimensão da estrutura governista, mas apresenta musculatura suficiente para disputar a vaga no segundo turno.

Se esse cenário se confirmar, a eleição deixará de ser uma disputa sobre quem possui mais apoios e passará a ser uma disputa sobre quem consegue atrair os apoios que ficaram pelo caminho.

Laurez

É nesse ponto que o vice-governador Laurez Moreira (PSD) ganha importância estratégica.

Mesmo enfrentando dificuldades para consolidar sua candidatura, Laurez segue como um dos poucos nomes capazes de influenciar decisivamente um eventual segundo turno. Ex-prefeito de Gurupi e principal liderança política da região sul do estado, ele mantém ao seu redor um grupo que inclui o senador Irajá Abreu e o ex-governador Mauro Carlesse.

Caso fique fora da fase final da disputa, a tendência natural seria que seu capital político se transformasse no principal objeto de desejo dos finalistas.

Para Dorinha, a aproximação não parece simples. O rompimento entre Wanderlei Barbosa e Laurez Moreira antecede o afastamento do governador e se aprofundou durante o período em que o vice assumiu o comando do estado. O desgaste não tem indícios que seja superado nos próximos meses.

Por outro lado, Vicentinho possui uma rota potencialmente mais acessível. Os dois estiveram próximos durante o período em que Laurez ocupou interinamente o governo. A relação esfriou quando ambos passaram a disputar o mesmo espaço político, mas há quem avalie que uma recomposição não seria impossível diante de um cenário de segundo turno.

O cálculo segue uma lógica de fácil compreensão: se Dorinha representa a continuidade do grupo político que hoje ocupa o Palácio Araguaia, Vicentinho e Laurez disputam, em graus diferentes, o eleitorado que busca uma alternativa ao atual arranjo de poder.

Ataídes

A presença do ex-senador Ataídes Oliveira (Novo) acrescenta uma variável difícil de medir. Seu discurso de crítica aos grupos tradicionais da política estadual dialoga com um eleitorado mais avesso às estruturas partidárias convencionais. Caso fique fora do segundo turno, não há garantia de transferência automática desses votos para qualquer um dos finalistas, o que torna seu desempenho um fator relevante para o cálculo eleitoral das demais candidaturas.

PT, Kátia e Lula

Outro elemento que ajuda a explicar a complexidade do cenário é a situação do PT.

O partido procura um espaço na eleição estadual ao mesmo tempo em que busca preservar um palanque competitivo para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Tocantins. A aproximação com o PSD de Laurez Moreira é vista como um caminho possível, mas esbarra na composição da chapa majoritária.

Hoje, as vagas ao Senado no grupo já estão ocupadas politicamente por Irajá Abreu e Mauro Carlesse. Restaria ao PT discutir a vice-governadoria ou construir um projeto próprio, hipótese que incluiria nomes como Kátia Abreu e Paulo Mourão.

Nenhuma dessas definições está concluída. Mas elas ajudam a explicar por que a eleição de 2026 parece menos concentrada na liderança do primeiro colocado e mais voltada para a disputa pelos apoios que poderão ser decisivos na etapa seguinte.

Se o primeiro turno servir para medir força, um eventual segundo turno terá outra lógica. Nessa fase, prefeitos mudam de posição, lideranças reavaliam alianças e adversários de ontem podem se transformar em aliados de ocasião.

É justamente por isso que, apesar da vantagem estrutural acumulada por Dorinha até aqui, a sucessão estadual continua aberta. A expectativa de poder pesa no primeiro turno. No segundo, o que costuma prevalecer é a capacidade de reunir forças que passaram meses disputando entre si.