O avanço dos conflitos no campo no Tocantins tem preocupado organizações que atuam junto às populações rurais. De acordo com Mylena Oliveira, agente pastoral da Comissão Pastoral da Terra (CPT) na regional Araguaia-Tocantins, os dados mais recentes revelam além do crescimento nos registros, mudanças na natureza dessas disputas, com novos elementos de pressão sobre comunidades tradicionais, assentadas e quilombolas.

Natural da Bahia e com trajetória ligada a territórios impactados pelo agronegócio, Mylena atua há cerca de dois anos no estado acompanhando comunidades em situação de vulnerabilidade.

“Em 2024 nós tivemos o registro de 50 casos e desses 50 casos não havia nenhum registro de conflito por água. Coisa que não acontece em 2025 temos 12 ocorrências registradas de conflito por água. A mesma coisa acontece com o trabalho escravo, né? Que ano passado nós tivemos registro de dois casos e esse ano foram outras oito ocorrências. Então a gente avalia como algo preocupante.”

Apesar do aumento dos registros também indicar maior atuação de órgãos de fiscalização, Mylena pondera que os números não podem ser interpretados de forma isolada: “Significa que, principalmente em relação ao trabalho escravo, nós temos as instâncias que fazem essa fiscalização e esse resgate dos trabalhadores, elas têm chegado, têm atuado de forma positiva. Mas a gente também avalia que dados que apresentam aumento nunca podem ser analisados sem trazer essa criticidade de que são violências que aumentam, que estão ali numa crescente.”

Mylena Oliveira | Foto: Arquivo Pessoal

Ela ainda chama atenção para possíveis subnotificações, especialmente no caso da água: “Em relação à água, ainda tem um outro fator que mais próximo no final do ano, depois do recolhimento dos dados, a gente ainda teve outras ocorrências em outras comunidades, principalmente assentamentos que já são áreas consolidadas ou era para ser consolidadas. Então aí a gente teria um número ainda maior, há uma pequena subnotificação.”

Para a agente pastoral, o crescimento dos conflitos por água reflete mudanças estruturais no modelo de desenvolvimento: “É só o retrato do avanço desse novo modelo que tem se instaurado, que é esse agro-hidronegócio, que tem crescido cada vez mais, as mineradoras, as hidrelétricas, as PCHs e todas as hidrovias, principalmente essas rotas, a rota bio-oceânica…É o bem comum que tem sido cooptado pelo capital.”

Recursos naturais em disputa

Para Mylena, o crescimento está diretamente ligado ao modelo econômico vigente: “Primeiro é essa financeirização da terra, da água, esse modelo de produção, de vida, de sistema que a gente vive, que é o capitalismo, que transforma os bens comuns em mercadoria. Isso diz muito sobre esse aumento.”

Outro fator apontado é a criminalização da luta pela terra: “A gente tem hoje a patrulha rural que atua de forma muito mais privada do que pública, se não completamente privada, atendendo os interesses dos latifundiários, dos grileiros, dos fazendeiros, e que saem detendo os trabalhadores, fazendo ações de despejo de forma violenta.”

Mylena também destaca a atuação do Estado:“A morosidade dos órgãos públicos que regulam a política de reforma agrária faz com que as famílias demorem a acessar a terra e consigam viver de forma digna.”

Há ainda o contexto regional, apontado por Mylena, que contribui para esse cenário, uma vez que o Tocantins está inserido no Matopiba, na Amazônia Legal e no Cerrado, áreas associadas à expansão do agronegócio.

Mudanças no uso da terra e disputa de modelos

Segundo Mylena, o aumento dos conflitos está ligado tanto às mudanças no uso da terra quanto à forma de ocupação do território. “A terra hoje tem esse caráter de financeirização. O movimento do land grabbing, que é essa apropriação das terras, faz com que empresários e investidores olhem para a terra como um novo modo de uso, não é mais só plantar soja, algodão ou milho. É uma outra roupagem de uso dessa terra e isso aumenta o conflito, aumenta a concentração fundiária e também as ações de resistência.”

De um lado, estão grandes empreendimentos, do outro, comunidades tradicionais: “Você tem empresários, fazendeiros, grileiros e mineradoras que enxergam o território como um lugar para explorar e transformar em lucro. E do outro lado, famílias que se enxergam enquanto parte do território, que cuidam das nascentes, preservam sementes crioulas, mantêm seus modos de vida.”

Esse cenário, segundo ela, configura um embate permanente. “É um cabo de guerra, que muitas vezes pende mais para o lado do agronegócio, mas que também está relacionado ao contexto histórico da formação do Brasil, que nasce de uma desterritorialização e de uma violência que segue até hoje.”

Conflitos espalhados e resistência no território

Os conflitos estão distribuídos por todo o estado, mas com maior visibilidade no norte e no Bico do Papagaio, onde a agente ressalta a maior presença de movimentos sociais e comunidades: “Você tem comunidades quilombolas, indígenas, posseiros, assentados, ribeirinhos, e isso também fortalece a resistência.”

As comunidades mais afetadas, segundo ela, são quilombolas e assentadas. “As famílias se sentem muito inseguras, muito ameaçadas. São muitas formas de tentativa de fazer com que essas famílias entreguem seus lotes. Tem drones sobrevoando essas comunidades. As famílias são muito assediadas no dia a dia.”

No caso da mineração, o impacto é ainda mais direto: “As famílias escutam muito: ‘o que está acima da terra é de vocês, mas o que está abaixo não’. Isso gera um temor muito grande, como se a presença delas não importasse.”

Tecnologia e novas formas de violência

Uma das principais mudanças na dinâmica dos conflitos é o uso de tecnologia. “Os drones têm aumentado muito. Eles são usados tanto para intimidação quanto para aplicação de agrotóxicos O imapcto é o seguinte, se você inviabiliza a água e destrói as plantações com veneno, não tem como essa família sobreviver. Você vai ter adoecimento dessas famílias, adoecimento do trabalhador, exposição aos venenos. Isso causa morte.”

Como parte da solução, Mylena defende mudanças estruturais: “Órgãos públicos precisam atender às demandas da população e não interesses privados. O poder público ainda tem muito no que avançar. Temos a mesa permanente da política fundiária, diálogo com o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública Agrária. Mas ainda é necessário ampliar essas ações. As famílias precisam de água, energia, escola, saúde, estrada, acesso a mercado, sem isso, também há violência. Você tem insegurança alimentar, esvaziamento do campo, juventude indo embora e ficando vulnerável ao trabalho análogo à escravidão. As populações rurais são feitas de resistência, mas é preciso garantir que tenham direito a uma vida digna.”

E conclui com um chamado à responsabilidade coletiva: “Tudo está interligado. Assim como nós estamos interligados nesse grande planeta chamado Terra, uma coisa está relacionada à outra. É preciso cuidar disso.”

O Jornal Opção Tocantins entrou em contato com órgãos públicos responsáveis por questões ligadas aos conflitos no campo, como o Instituto de Terras do Tocantins (Itertins) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), mas não obteve retorno.

A reportagem também procurou a Polícia Militar, que em nota informou que a atuação da Patrulha Rural segue protocolos operacionais e critérios legais, com foco na preservação da ordem pública e na proteção de pessoas e bens no meio rural. Afirmou ainda que as ações em áreas com conflitos fundiários ocorrem de forma técnica e alinhada às determinações de órgãos competentes e do Judiciário, com abordagens baseadas em critérios legais e uso da força orientado por princípios como proporcionalidade e necessidade.

Segundo a PM, há também mecanismos internos de controle e diretrizes voltadas à garantia da regularidade das operações e ao respeito aos direitos dos cidadãos.

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