Artigo de Opinião
Carmo Gomes*
E no mesmo instante o galo cantou.
Mateus 26.74.
O menino sentia como se houvesse no ar um gosto de bala velha, esquecida no fundo de uma gaveta. “Seria um verdadeiro milagre”, a vovó dissera uma semana antes, “conseguir reunir todo mundo nessa época do ano”. E ali estavam os quatro filhos, a nora… – e a molecada, concluía o menino, procurando com os olhos os primos, que disputavam as poucas tomadas da sala para carregarem os celulares…
Só que a vovó não parecia mais feliz que no resto daquele ano. Estava, como sempre, uma pilha de nervos. Meia hora antes o menino a pegara gritando com sua pobre mãe Lena, que ficava girando em torno dela na cozinha apertada, tentando acatar suas ordens. E notara que as mãos de sua mãe estavam mais trêmulas do que de costume. O motivo da tensão parecia ser o frango, que a avó, ao chegar da rua, obrigara sua mãe a retirar da mesa da sala e levar de volta para o forno, gritando que ainda estava cru e se ela, “uma mulher velha dessas”, não conseguia perceber a diferença.
Todos na família haviam aprendido a lançar as grosserias da vovó na conta de sua doença dos nervos. Mas algo mais parecia estar errado – o menino percebia, associando aquilo com o gosto insosso de balinha dura e envelhecida – e era que ninguém mais parecia ser como antes. O tio padeiro, por exemplo, não trouxera queijos para vovó neste ano e nem pulara da cama de madrugada para fazer fornadas de rosquinhas de coco, como da última vez. O tio daquela igreja engraçada já não o pegara no colo. Além disso, a esposa dele não saíra do quarto uma única vez, desde que haviam chegado, no início da tarde. Já o tio pastor – o preferido da vovó –, geralmente calmo e sabido, dessa vez estava falando pelos cotovelos com aquele velhinho que a avó sempre convidava para as comidas de fim de ano. E naquele converseiro todo tinha algo de estranho.
– O pessoal não sabe latim – reclamava o tio pastor, virando a boca para o ouvido bom do velhinho, ainda que pudesse ser ouvido por quem quisesse na sala pequena e abafada, onde todos estavam distribuídos como podiam, aguardando o fim da solenidade para atacar as comidas. – Nem latim nem história nem coisa alguma! Como eles vão adivinhar que quando o texto dos evangelhos na Vulgata diz “o galo cantou” não quer se referir ao marido da galinha… Era o gallicinium! Entende? O soldado romano e sua trombeta, tocando de madrugada para a troca do turno da guarda?
– Eh, né? – respondia sem jeito o pobre do velhinho, sem entender nada e temendo ofender a dona da casa, que era tão boa com ele. O tio da igreja engraçada lançou um olhar feio para o tio pastor, que nem ligou:
– O senhor já viu como o pessoal troca tudo, parece, de propósito? Cristo, a Verdade em carne e osso, pode ter nascido no primeiro de abril. Pois não fizeram desse o Dia da Mentira! A Páscoa, festa do Cordeiro e das ervas quase tão amargas como a escravidão, virou a festa dos coelhos e da chocolatada doce. Logo coelho: símbolo da incontinência e da luxúria… já viu procriação mais desenfreada que a de coelhos? E o Natal, então? O Natal, nascimento de nosso Senhor (que deve ter sido em abril, como eu lhe disse, e não em dezembro)… O que tem a ver, comer frango assado no Natal? A festa de Ações de Graças dos americanos é com peru, daí inventaram de copiar. Mas como peru é difícil e frango tem em todo lugar… Mas não é uma esquisitice?!
– Shh! – fez alto o tio da igreja engraçada. O tio pastor se recolheu e não disse mais nada, contrariado. O menino viu sua mãe sair de fininho e se trancar no quarto da vovó. Esta, finalmente entrou na sala com a forma e passou o frango para o lugar que lhe haviam reservado: o centro da bandeja com as batatas assadas e farofa com ameixas secas. A vovó o alisava com um garfo, completamente distraída.
– Vamos logo, mamãe! – reclamou o tio padeiro, que não conseguia mais manter debaixo dos braços os dois filhos, que teimavam em escapulir de volta para seus lugares junto às tomadas. Foi então que a vovó, se mais nem menos, ao invés de falar da família e da importância de estarem reunidos naquela data tão sagrada e aquilo tudo que ela sempre dizia todo ano, começou a sorrir estranho e a contar a história daquele grande frango: que ele fora enjeitado ao nascer, ficando sem irmão e sem mãe; muito doentinho, tomara bastante remédio até virar frangote e que um dia alguém dissera que ele nunca ia servir para comida pois tinha sido pura bactéria quando pintinho…
Enquanto ela dizia aquilo tudo, o menino se comoveu, lembrando-se de como vira a avó cercar o bicho horas antes no corredor. Dele gritando e tentando se safar… Ela prendera os pés dele sob o pé gorducho dela, pegara-o pela cabeça com a mão esquerda, esticara-lhe o pescoço e, com a faca afiada que tinha na mão direita, raspara-lhe a penugem da garganta… O menino até quisera fechar os olhos para não ver o lance final, mas uma triste curiosidade o fizera fixar até o fim o ritual: o corte rápido e o jorrar do sangue espesso e escuro no prato, enquanto o Bactéria gorgolejava e tentava escapar. Mas o mais assustador tinha sido quando a avó liberara o frango para morrer e ele, saltando de uma maneira quase engraçada, dera ganidos estranhos enquanto o resto do seu sangue esguinchava no quintal, até que finalmente ele parecia ter se rendido e ficara imóvel para sempre…
– Vovó! – gritou choroso o menino no meio da sala perplexa – eu não vou querer frango!

* Nascido em Bandeirantes do Tocantins (TO) em 1974, Carmo Gomes foi alfabetizado pela mãe e iniciado no mundo literário pelas rodas de cordel do pai. Fez seus estudos universitários na Federal de Goiás e é professor de Letras na UFT de Porto desde 2011. Tentou escrever o primeiro enredo policial aos 15, mas só lançou o primeiro romance em 2018, aos 46 anos. Era o primeiro livro da sua trilogia “Beleza & Temor”, da qual já publicou também o segundo volume. Publicou ainda o cordel “As desventuras de Nóis Mudemo”.
* Rubens Gonçalves
Uma sombra persistente que se recusa a se dissolver na luz da consciência; que se arrasta ao nosso lado, indesejada, como um lembrete constante da nossa vulnerabilidade frente a um mundo que parece nunca dar trégua. Um zumbido eterno no fundo da mente. Uma melodia dissonante que nos acompanha até nas horas mais silenciosas da noite. Mas a verdadeira tragédia não está apenas no sentir. Ela se esconde no fato de que nos isolamos em um universo de inquietações pessoais, enquanto o mundo continua a girar, impassível.
A ironia cruel? Em um mundo no qual a comunicação nunca foi tão acessível, nos tornamos cada vez mais distantes. Cada notificação, cada e-mail não lido, cada mensagem que exige resposta, é uma gota no oceano do nosso estresse diário. Somos navegantes em um mar de informação que, em vez de nos trazer clareza, nos afunda ainda mais em nossa própria turbulência.
E não há discriminação. Classe social, idade, origem, nada importa. É a revelação constante de nossa fragilidade diante da eterna pressão: não atender às expectativas alheais, não alcançar metas, falhar… Tudo se amalgama em um caldo de inseguranças que fervilha dentro de nós.
Buscamos refúgio. Tentamos nos distrair com um episódio de série ou uma compra online. Mas ela persiste, como um espelho cruel que reflete nossa incapacidade de simplesmente parar. Respirar…
Nos esforçamos para controlar o incontrolável. Lemos livros de autoajuda, em busca de soluções rápidas, receitas mágicas para a paz interior. Mas, talvez, a resposta resida em algo mais simples: aceitar nossa própria imperfeição.
Vivemos uma era de demandas implacáveis e expectativas irreais, que exige coragem para simplesmente estar presente, mesmo quando a mente clama por outro roteiro. Um roteiro no qual os problemas desaparecem. E, por fim, descobrimos a beleza tênue na simplicidade da vida.
Carmo Gomes*
Todo mundo conhece o lugar em que se passou a história que acabou dando origem à anedota do boi de piranhas. Não é muito difícil descobri-lo, bastando, para tanto, ouvir a música “Travessia do Araguaia” dos saudosos Tião Carreiro e Pardinho.
Pois certo viajante, passando por aquele lugar, resolveu conhecer mais de perto as origens da fábula. Escolheu para uma conversa um magro e simpático velhinho que pescava pacientemente às margens do formidável rio. O bom homem o atendeu com presteza, alegre pela oportunidade de falar das coisas da sua terra.
O viajante quis saber se havia mesmo muitas piranhas naquela região, com a desculpa de fazer o outro rememorar o famoso acontecimento. Para sua surpresa, o velhinho tinha para o evento uma outra versão, bastante inglória e pouco favorável. O viajante chegou a supor que, doravante, a anedota do boi de piranhas não deveria mais ser usada como analogia dos expedientes da política brasileira, já que o velhinho disse, convicto, que fizera parte do comboio cantado na música e que o verdadeiro ocorrido da história tinha sido mais ou menos assim.
Sendo muito comum que um indivíduo mais lento ou menos saudável da boiada fosse devorado nas travessias do Araguaia, naquela cheia os bois – e o velhinho garantiu ser possível não só tal fabulação como sua recorrência – os bois como que se olharam e tomaram uma decisão: todos passariam lentamente, como se todos fossem bois de piranha. Isso confundiria, como de fato confundiu, os parvos peixes, que ficaram sem saber a qual mocotó se dedicar. Assim, todos os bois levaram algumas mordidas leves; mas, como eram muitos e como tinham tido a vantagem da surpresa, chegaram, a bem-dizer, intactos na outra margem…
Ora, para evitar que aquilo se tornasse uma estratégia comum e mesmo uma desmoralização completa, uma piranha inteligente se encarregou de espalhar o boato, a outra versão da história, a qual se encontra, desde então, completamente disseminada.
Amoral da fábula: (versão cínica das piranhas) é preciso insinuar que todo mundo vai cair para que caia pelo menos um; (versão resignada dos bois) antes todos serem devorados aos poucos do que um só ser devorado por vez.

* Nascido em Bandeirantes do Tocantins (TO) em 1974, Carmo Gomes foi alfabetizado pela mãe e iniciado no mundo literário pelas rodas de cordel do pai. Fez seus estudos universitários na Federal de Goiás e é professor de Letras na UFT de Porto desde 2011. Tentou escrever o primeiro enredo policial aos 15, mas só lançou o primeiro romance em 2018, aos 46 anos. Era o primeiro livro da sua trilogia "Beleza & Temor", da qual já publicou também o segundo volume. Publicou ainda o cordel "As desventuras de Nóis Mudemo".
* Flayra Sobrinho
Por muito tempo eu acreditei que o segredo da vida estaria em casar, ter filhos e simplesmente cuidar da casa. E sim. Existem mulheres que escolheram essa vida e são muito felizes. Acontece que essa realidade não se encaixa para outras. Vida acadêmica, profissão, carreira, desenvolvimento pessoal são outros requisitos prioritários para aquelas que decidiram focar somente a isso e que também exalam felicidade por onde passa.
O que me preocupa é como somos tratadas, qual o grau de respeito temos em qualquer ambiente que estamos, sendo mulher, seja no lar e/ou num cargo de gerência da empresa dos sonhos. É exatamente isso que me questiono todos os dias. Certa vez numa sessão na Câmara dos Vereadores do meu município cheguei a pensar que seria coisa da minha cabeça quando vi uma mulher falando, e a maioria (homens) saindo da sessão, conversando entre si, mexendo no celular, ou seja, sem dar a mínima atenção. Por que isso acontece na maioria das vezes? Será que o problema está em ser mulher?
Desde a infância, nós mulheres somos oprimidas nos mais diferentes aspectos da vida. Ah! Você não pode usar short curto. Ah! Você é diferente do seu irmão. Então, deixa ele. Ah! Feche essas pernas, quer mostrar o que para os homens? Esses comentários são alguns dos quais escutei quando eu era criança e hoje sendo adulta, com pensamento crítico e elevado sei reconhecer qualquer comportamento machista, e é claro procuro me posicionar contra ele. Chego a me perguntar se a falta de respeito é consequência do machismo enraizado. Será que é? Segundo um levantamento do PoderData, 83% dos brasileiros dizem haver machismo no Brasil. Esse, infelizmente, é um dado muito triste e o nosso objetivo é contribuir para a mudança dessa realidade.
É importante ressaltar ainda que as ameaças contra as mulheres só aumentam a cada dia, a cada instante, a cada segundo, seja ela física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. São todas doloridas, que deixam marcas e se não foram tratadas reverberam para o resto da vida. E talvez esse seja o maior desafio. Mulheres em “n” situações escondem para si tais acontecimentos a fim de poupar a morte. Por falar em morte, nesse caso o feminicídio, o Brasil lidera a 7ª posição que mais mata mulheres. E segundo Gulsum Kav, fundadora do grupo We Will Stop Femicide (Vamos acabar com o feminicídio), o feminicídio é o assassinato de mulheres e meninas por causa de seu gênero - é a forma mais extrema da violência contra a mulher, mas em muitos países não há registro do número de casos. Esse é outro dado muito comovente e nos motiva ainda mais na luta pelos direitos ao respeito, à vida, à saúde e à integridade física. Será que é pedir muito? Será que não podemos viver bem, só sendo uma mulher livre, ousada e independente? É incômodo demais para os homens ver um mulherão liderando uma empresa? Causa raiva ver uma mulher discursando para uma multidão? Homens, coloquem na cabeça de vocês, não queremos ocupar o lugar de vocês, queremos apenas igualdade e, acima de tudo, respeito aonde quer que estejamos. Fui clara?

* Estudante de Jornalismo e produtora de conteúdo digital
*Altair Sales Barbosa
Desde dos meus tempos de estudante do antigo ensino primário e ginasial que aprendi lendo os livros de geografia e também com os meus professores, que o Brasil possuía a maior ilha fluvial do mundo. A Ilha do Bananal, formada pela bifurcação do rio Araguaia que mantinha seu braço esquerdo com o nome de Araguaia e o braço direito com o nome de Javaé, denominação tomada emprestada dos índios Javaé, pertencentes ao mesmo grupo linguístico da nação Karajá. Estes últimos, habitam mais às margens do Araguaia, enquanto que os Javaé estão mais nos domínios das águas do rio Javaé.
A junção dos dois braços, ocorre próximo à cidade de Formoso, hoje Estado do Tocantins. Por força da minha formação universitária, por várias vezes fazia visita regular a então Ilha do Bananal para estudos antropológicos e geológicos. Era comum adentrar à ilha pelo Javaé, para isto atravessávamos nossos carros em balsas, com capacidade de transportar até três caminhões.
O tempo foi passando e trouxe para a realidade novos projetos, com base em novas tecnologias, fato que foi acompanhado de grandes transformações ambientais e sociais em todo vale do rio Araguaia e adjacências. Segundo o geólogo Maximiliano Bayer da UFG, a cada ano o rio Araguaia fica mais largo e menos profundo, consequência das grandes modificações ocorridas no vale.
Com o incremento desses grandes projetos e a criação do estado do Tocantins, que transformou o Projeto Rio Formoso no maior projeto de irrigação do estado, para produção de grãos e melancia, caracterizado pela implantação de barramentos, em áreas sem aptidões para tal, a introdução de pastagens exóticas no interior da Ilha para o sustento do agora já grande pastoreio, todas essas ações foram minando as águas do Javaé até chegar a situação atual, que causou o desaparecimento do braço direito do Araguaia e como consequência a extinção da maior ilha fluvial do mundo. Entretanto, para que possamos entender esse processo, torna-se necessário alargarmos um pouco o horizonte e compreendermos a sub- bacia hidrográfica do Araguaia como um todo.
A noção de que “rio novo” seja aquele que ainda esteja definindo o seu leito principal não é correta. Calcular a idade de um rio, tomando como base a quantidade de sedimentos que transporta, ou simplesmente atribuir o seu período de existência, associando-o a origem geológica dos terrenos percorridos por suas águas, não são parâmetros seguros, nem podem ser generalizados.
Meandros abandonados, ao invés de significarem indícios juvenis, podem significar indícios de longevidade. Devem ser vistos como capítulos da história evolutiva de um rio. O transporte e o depósito de sedimentos dependem das formações geológicas regionais e das feições geomorfológicas. Se a idade geológica dos terrenos fosse também o único padrão utilizado para determinar a idade de um rio causaria uma extrema confusão.
O rio Araguaia, percorre terrenos Paleozóicos com milhões de anos, como também percorre terrenos bem recentes, que ele próprio formou pelo transporte de sedimentos, que às vezes não atingem o tempo de um século.
O tempo de vida de um rio pode ser definido por vários fatores, como largura e extensão da bacia hidrográfica, pelos fenômenos geológicos ocorridos regionalmente, pela história evolutiva que possibilitou a formação das paisagens etc. Entretanto, nada disso é compreensível, se não tivermos em mente que um rio não cresce para baixo, mas para cima, sempre à montante.
Nesta perspectiva, o rio Araguaia pode ser considerado como um dos mais antigos da história hidrográfica moderna da América do Sul. Teve suas origens associadas aos fenômenos de ordem geológico, climático e geomorfológicos, que formaram as paisagens modernas do Planeta, ou seja, as paisagens que existem atualmente e que tiveram seu início no alvorecer da Era Cenozóica, por volta de 65 milhões de anos antes do presente. Esta idade, refere-se apenas a uma fração de tempo, em relação às primeiras paisagens da Terra que datam de 4 bilhões e 600 milhões de anos, mas, por outro lado é o mais antigo capitulo evolutivo da história recente do planeta Terra.
A história do rio Araguaia está associada aos fenômenos que contribuíram para a consolidação do Sistema Biogeográfico do Cerrado. Os movimentos epirogenéticos ou subida lenta de grandes áreas que formaram o Planalto Central Brasileiro, mudaram a direção de alguns cursos d’água que hoje correm para o Araguaia e possibilitaram que o próprio rio Araguaia começasse uma trajetória que o levasse através do Tocantins/Amazonas até o oceano Atlântico.
O rio Araguaia nasce em território goiano, na borda norte de uma extensão de área sedimentar de idades que vem desde a Era Paleozóica. Área esta, denominada geologicamente de Bacia Sedimentar do Paraná, em cotas próximas a 900 m, na região do entorno do Parque Nacional das Emas, no Município de Mineiros.
No curso de seus primeiros 300 km, o rio Araguaia corre em rochas sedimentares, com seu vale bem encaixado, seguindo a estrutura dessas rochas, até atingir a planície do Bananal. A principal feição geológica nesse trecho é o Domo do Araguainha, estrutura de impacto de meteoro, que embora tenha seu núcleo em Mato Grosso na cidade de Araguainha, possui grande influencia na geomorfologia do curso superior do Araguaia.
No início da planície do Bananal, afloram rochas gnáissico-granítica e vulcano sedimentares de idade Pré-Cambriana, que formam, geologicamente falando, o embasamento ou substrato da grande bacia sedimentar do Paraná.
Desde sua nascente, até a planície do Bananal, o rio Araguaia desce de cotas de 900 m. para cotas próximas de 300 m, adquirindo feições de rio juvenil encaixado, passando, a partir da planície, a desenvolver seu percurso sinuosamente em meandros, evidenciando assim formas geomorfológicas com características de rio de curso normal. A partir da planície, também podem ser observados afloramentos de rochas Quaternárias de deposição recente em contato sobreposto às rochas Pré-Cambrianas.
A planície do Bananal é uma extensa fossa tectônica em atividade, que tem o seu fundo, já subsidio em aproximadamente 5.000 m. desde o período Cretáceo e continua neste processo dinâmico de movimento descente.
O comportamento dessa fossa tectônica termina na sua ponta norte, já no Estado do Tocantins, extremo norte da Ilha do Bananal. A partir deste ponto o rio adquire uma nova feição juvenil, encaixado em rochas estritamente Pré-Cambrianas até sua barra no rio Tocantins, junto à cidade de Marabá, na região conhecida como Bico do Papagaio.
O rio Araguaia é alimentado no seu curso superior por águas do aquífero Guarani, associado às formações geológicas Botucatu e Bauru, a partir do seu curso médio os aquíferos Urucuia e Bambuí são responsáveis maiores pela sua alimentação. A recarga desses aquíferos depende da água da chuva que cai nos chapadões e sua absorção pela vegetação nativa do cerrado. Todavia, esses aquíferos se encontram em situações melindrosas, porque não estão sendo recarregados o suficiente, para manter a perenidade e o fluxo d’água, para as nascentes, córregos e afluentes que alimentam o Araguaia.
Diante do exposto, pode-se colocar a seguinte indagação: Por que o rio Araguaia ainda não desapareceu? Felizmente conhecemos algumas respostas. A principal se refere aos níveis dos lençóis freáticos, que são aqueles depósitos acumulados durante os dois últimos períodos chuvosos. A água destes lençóis, em função da declividade do terreno escorre direto para a calha do grande rio. Estes lençóis ainda se encontram em condições razoáveis de preservação, tendo em vista as condições pluviométricas que se tem mantido constante e a condição dos ambientes ciliares, razoavelmente preservados.
Com a possibilidade de redução dos ambientes ciliares, pelas mudanças propostas para o Código Florestal Brasileiro, grande parte do lençol freático, será inevitavelmente afetada ao longo do rio, o que resultará numa diminuição drástica do seu volume de água, num processo crescente, até afetar a vida do próprio rio.
Diferentemente dos sólidos, a água não possui força de resistência, fluindo em qualquer tipo de declividade. O escoamento das águas pluviais depende da capacidade de infiltração. Se a água da chuva encontra um solo desprotegido, sem vegetação original, a infiltração diminui acentuadamente aumentando a velocidade do escoamento superficial, causando erosões e assoreamento.
Correntes fluviais recebem água de vários pontos, incluindo o fluxo laminar e chuva que cai diretamente nos canais. Entretanto, o fluxo de canal proveniente das chuvas, é um fenômeno efêmero. O que mantém a perenidade de um rio é a água fornecida pela umidade do solo e pelos aquíferos. Em ambos os casos a retirada da cobertura vegetal reduz a umidade do solo e a reserva de água nos aquíferos, fatores que afetam diretamente a vida de um rio.
O rio Araguaia em função de sua história evolutiva, e, também porque já atingiu seu estágio de equilíbrio, num tempo mais curto que possamos imaginar se transformará num ambiente desolador, triste e sem vida, se as modificações ambientais na sua sub-bacia continuarem crescendo no ritmo em que se encontra.
Infelizmente, o progresso em ciência não é fácil. Os argumentos que, finalmente, levam a ciência a avançar são muitas vezes desagradáveis. Nós pesquisadores, não temos ainda total domínio de tecnologias eficazes para recuperação de áreas com degradação acentuada. Portanto, se quisermos evitar um desastre ambiental e uma convulsão social futura, o melhor caminho é a preservação.
Voltando aos parâmetros específicos da Ilha, esta foi descoberta em julho de 1773 pelo sertanista José Pinto Fonseca. Inicialmente recebeu o nome de ilha de Santana. O nome Bananal surge em virtude da grande quantidade de pacova existente no seu interior. Trata-se de uma planta cujas folhas se assemelham a bananeira, originária da Índia.
A Ilha do Bananal sempre foi considerada um laboratório vivo, tanto do ponto de vista da geologia, como da vida silvestre e da antropologia. É reserva ambiental brasileira desde 1959 e considerada reserva da biosfera pela Unesco desde 1993. Na realidade dentro dos limites da antiga Ilha do Bananal existem 4 unidades de conservação. Na parte sul se encontra a Terra Indígena Parque do Araguaia, ao norte está o Parque Nacional do Araguaia, ao qual se sobrepõe a Terra Indígena Iñawébohona, a nordeste e a Terra Indígena Wyhyna/Iròdu Irana ao norte.
Entretanto a Ilha do Bananal, também foi vista como área estratégica para conquista dos Sertões de Dentro. E, nesta perspectiva Getúlio Vargas, então presidente do Brasil a visita em 1940 para sedimentar a partir de então o grandioso empreendimento denominado Marcha para o Oeste, com o objetivo de contactar índios arredios e estabelecer um plano para o povoamento do interior do Brasil. As idéias de Vargas são retomadas por Juscelino Kubitschek, que chega a ordenar a construção de um hotel na Ilha, com talheres em prata e taças de cristal, para incrementar o turismo. E através da Fundação Brasil Central, Cria a Operação Bananal para com a ocupação da Ilha, também ocupar de forma intensiva o centro do Brasil. Todas essas iniciativas trouxeram heranças ruins para Ilha tais como: A criação de estradas e a introdução da criação do gado bovino.
A Ilha do Bananal desde tempos remotos foi o paraíso dos índios Karajá, cuja grande nação se divide em Javaé que habitam as margens do rio Javaé, dentro da ilha, e grupos menores como os Karajá de Aruanã e os Xambioá ambos habitantes do Vale do Araguaia. Mais recentemente outros grupos indígenas fazem incursões até a Ilha, como é o caso dos Tapirapé e dos Xerente. No final do século XX, um pequeno grupo de Avá-Canoeiro habita áreas do Parque Nacional do Araguaia, levados até aí por Apoena Meirelles.
Como já foi dito, a Ilha do Bananal sempre foi o paraíso dos Karajá e nesse ambiente esta Etnia criou toda uma cosmogênese recheada com elementos que a compõem, inclusive o mito das suas origens, que diz terem surgido das profundezas das águas. Imagino a força do impacto nas mentes dessas populações ao olharem para suas lagoas, seus rios interiores e o próprio Javaé e verem como também sentirem todos agonizando em meio a tanta penúria.
*Altair Sales Barbosa é pesquisador do CNPq, sócio emérito do Instituo Histórico e Geográfico de Goiás, professor convidado da Universidade Evangélica de Goiás e membro do Conselho da Revista Xapuri. Possui graduação em Antropologia pela Universidade Católica de Chile (1970), é doutor em Arqueologia Pré-Histórica pela Smithsonian Institution, National Museum of Natural History de Washington, Estados Unidos (1991).
* Rubens Gonçalves
Leio - triste, mas não surpreso - que um pastor de Guarapuava (PR) cometeu suicídio. Outro, de Contagem (MG), tirou a própria vida dentro da igreja, a qual dirigia há vários anos.
Em Corumbá (MS), um padre de 34 anos foi encontrado sem vida na sede do Bispado, no centro da cidade. "A principal hipótese", diz a matéria, "é que tenha tirado a própria vida, enforcando-se com uma corda."
Trago essas tristes notícias, relatadas em diferentes partes do país, para uma reflexão: será que a depressão, como muitos querem fazer crer, é "falta de Deus?"
Ou será que esses religiosos (e poderiam ser citados inúmeros outros exemplos) eram falsos pastores? "Vendilhões do templo"?
Aos que desconhecem o termo, a história dos "vendilhões do templo" é a seguinte: no livro de João (2,13-25) há uma passagem em que Jesus Cristo expulsa os vendedores que ocupavam o templo, que é a Casa do Senhor. Aliás, Ele fez isso mais de uma vez.
Não que os "vendilhões do templo" contemporâneos não existam. Eles estão por aí, em programas de rádio e TV e nas redes sociais, viajando em seus jatos particulares e fazendo pregações, mas sobre outro "Messias".
Diferentemente destes, caro leitor, ao que tudo indica, os religiosos citados no início deste texto, que tiraram a própria vida, não eram "falsos pastores", nem "vendilhões do templo".
Eram apenas seres humanos, com seus problemas, dificuldades, ansiedades, melancolias, depressão, como parece demonstrar a mensagem do padre já citado, em suas redes sociais, dois dias antes de tirar a própria vida:
"noites traiçoeiras…até aqui não faltou em mim esforço, Dei o meu melhor,,,,mas tenho remado muito a favor de maré, e tenho permitido que a ela me leve…..momentos de revolver tudo, de tomar uma nova decisão…me ilumine senhor…. seu amor é e me basta me refaça, mas me faça apenas humano….” [Sic].
Para este escrevinhador, que desconhece palavras e ideias grandiloquentes, os transtornos psicológicos - que podem ou não levar ao autoextermínio - não é, necessariamente, falta de Deus.
Não pretendo, porém, negar a importância da fé no processo de recuperação; não apenas dos casos de transtornos mentais, mas das doenças em geral.
Ter atitudes positivas (inclusive por meio da fé) diante de situações adversas é fundamental. A própria ciência reconhece isso.
Entretanto, não se deve abrir mão de acompanhamento profissional. Para os que (com base na fé) rejeitam os profissionais especializados, vale se questionar: quem dotou tais profissionais de conhecimentos?
Mas os deprimidos não são cobrados apenas pelo suposto distanciamento de Deus. Há quem veja no problema um quê de "fraqueza", "falta de força de vontade", "frescura".
Não. Depressão não é frescura, mas uma doença mental que precisa ser levada a sério, pois causa tristeza profunda, dor, amargura e desesperança. E, como deve estar claro, pode levar ao suicídio.
Outra questão recorrente: questionar o motivo da depressão de alguém cuja vida, supostamente, está em perfeita harmonia. "Você tem uma família linda, amigos, um bom emprego…"
Fosse simples assim, não leríamos manchetes sobre pessoas bem-sucedidas que se jogam de coberturas de edifícios luxuosos nos quais residiam.
Para encerrar, caro leitor, antes que você também fique deprimido, transcrevo a seguir as palavras de um dos líderes religiosos mais conhecidos do país: o padre Fábio de Melo.
"Tristeza não tem que ser medicada. Faz parte da vida. Eu me entristeço de vez em quando e não preciso tomar remédio para isso. Quando a tristeza não passa, se estende, vira rotina, aí é hora de pedir ajuda [profissional]".
* Jornalista.

*Henrique Araújo de S. Zukowski
Durante o período eleitoral, emergem salvadores que farão da Administração Pública uma instituição diferente. Espalham-se soluções simples para problemas complexos. Apontam-se gargalos sem que se indique como esses podem ser resolvidos. Diz-se o que for preciso para conquistar o valioso voto, mesmo que o dito não seja atribuição do cargo pretendido. Apresentam-se candidatos populistas, no sentido pejorativo do termo.
Os eleitores, por sua vez, como se estivessem magicamente encantados pela retórica, em sua maioria, exercem o sufrágio de forma irracional e, assim, definem a sua sorte. Os critérios de escolha, quase sempre, excluem os aspectos relacionados à capacidade técnica. Há, portanto, a primazia pela proximidade afetiva e pela confiança pessoal, sendo comum ouvirmos frases do tipo: “Votei em fulano, pois é um amigo da minha família.” Trata-se de uma forma de convívio ditada por uma ética de fundo emotivo que é espelhada na política.
Desse modo, é possível deduzir que ao processo eleitoral não é conferida a seriedade adequada. O sociólogo Sérgio Buarque de Holanda e o antropólogo Roberto DaMatta esclarecem que o descompromisso com aquilo que requer um certo grau de liturgia é uma marca cultural do nosso povo. O primeiro pensador chega a afirmar que o brasileiro possui “aversão ao ritualismo”.
Importa reconhecer que o jogo político possui contornos que, à primeira vista, podem parecer inacessíveis; todavia, é dever do cidadão compreendê-lo. A consciência acerca da relevância do voto e dos cargos em disputa, por parte do eleitorado, é fator fundamental para a mudança efetiva da conjuntura social.
Nesse sentido, a escolha do representante deve ser precedida de profunda análise e ponderação. O eleitor deve se convencer muito mais pelo plano de governo do que pelos discursos dos candidatos, principalmente se estes forem simplistas. De igual modo, a capacidade técnica deve sobrepor-se à confiança pessoal.
Por conseguinte, é imprescindível a mudança de mentalidade de eleitores e candidatos. Esses últimos devem se capacitar para o exercício do cargo objeto da disputa, enquanto os primeiros devem definir critérios de escolha assertivos.
Assim, caro eleitor, rogo para que não se deixe enganar por retóricas vagas e que sua decisão seja alicerçada na consciência de que seu voto pode mudar os rumos da sociedade brasileira.

*Especialista em Direito Eleitoral pela PUC Minas e pós-graduando em Gestão Pública e Sustentabilidade pela USP.
*Uemerson Florêncio
Na maioria dos relatos de assediadores, muitos alegam que as roupas das vítimas são motivo para suas abordagens. Muitos se colocam como vítimas, afirmando que o ato cometido foi algo mais forte do que eles. Reflita: se a roupa é motivo para cometer o delito, não ficaria um manequim numa loja. É isso mesmo? A mulher tem o direito de se vestir da forma que quiser. Se o traje é o motivo para o assédio, uma mulher estaria proibida de ir à praia? Não poderia frequentar uma academia? Não poderia usar nenhuma roupa que a faça se sentir confortável?
A pessoa assediadora é um predador da dignidade humana, já tem o caráter abusivo por si só. A nudez está nas suas fantasias mentais. As vítimas, na maioria dos casos, se sentem coagidas, muitas tornam-se pessoas introspectivas, resguardadas, desconfiadas com tudo e todos. É fundamental atentar para a importância do processo educacional dos nossos filhos, visando propagar o respeito às mulheres, afinal, eles também vieram ao mundo a partir de uma mulher.
Quantas mulheres neste momento estão ausentes das academias por causa de muitos alunos ou até por conta de muitos profissionais que trabalham nesses locais? Nas áreas onde o corpo está em evidência e há interação com pessoas, como para fisioterapeutas, treinadoras de academia, professoras de educação física, dança ou treinadoras desportivas, quantas são vítimas diariamente? Quantas desistem de seguir em frente com suas profissões por conta da quantidade de assédio no ambiente?
Dessa forma, quero dar especial destaque para este movimento muito presente nas rotinas diárias de muitas mulheres - o assédio. É uma ação muito recorrente na vida delas, só quem vive sabe o que passa. Para muitas mulheres que vivem esta realidade, deixar de frequentar certos lugares é uma consequência natural. Por que este discurso ainda é tão presente nas conversas? Por que muitos homens ainda estimulam outros por meio de apostas, como se a mulher fosse um objeto?
É notável perceber que muitas modificam suas opções de caminhos, ruas, alteram seus padrões comportamentais, surgem crenças limitantes que comprometem suas realizações e perspectivas de futuro. Olhe bem o tamanho do estrago realizado na vida dessas mulheres por conta do assédio. Quantas vezes você se viu neste cenário ou ouviu depoimentos nesse sentido?
E nas festas, onde as mulheres desejam estar bem consigo mesmas, não deve haver importunações e constrangimentos. Por esta razão, seguem algumas orientações:
- Quando a mulher diz não, não insista. Respeite o direito da mulher de não aceitar seu convite; afinal, não se oferece nada a quem nada pediu. Simplesmente respeite.
- Não se pega nenhuma mulher pelo braço para dançar à força - é uma grande falta de respeito. Você aceitaria com naturalidade se testemunhasse sua filha passando por um desconforto deste tipo?
- O fato de uma mulher estar rindo com seus amigos não significa que ela irá sorrir para qualquer pessoa com a mesma intensidade. Não sorria para qualquer elogio; pode ser que você esteja abrindo portas para que um assediador entre na sua vida.
- Atenção, mulheres: cuidado com quem as convida para dançar. Muitas são tocadas com falta de respeito e podem ser sequestradas durante a festa sem que seu grupo perceba, tornando-se manchete nos jornais mais tarde.
- Atenção às bebidas e comidas que oferecem durante as festas. Cuidado com o golpe do “boa noite Cinderela.” Este golpe já deixou muitas pessoas com grandes prejuízos; outras nem puderam voltar para suas casas.
Conclusão: Não estou aqui para ditar verdades, mas para sensibilizar quem pode se tornar vítima de assédios. Quantas vezes você foi assediada por pessoas desconhecidas ou, pior, pelas conhecidas? Quantas vezes foi cercada por amigos por conta da sua roupa em festas familiares? Imponha-se imediatamente e reaja com total energia e firmeza. Seja firme nas suas respostas a qualquer tipo de elogio gratuito e assédio.

* Uemerson Florêncio – Pesquisador em Psicopedagogia pela Universidade Estácio de Sá. Treinador, palestrante e correspondente internacional com artigos de opinião nas Américas, Europa e África, onde expõe sobre a análise da linguagem corporal, gestão da imagem, reputação e crises. Criador do método pentágono da comunicação.
*Henrique Araújo de S. Zukowski
Leonel Brizola foi fundador do Partido Democrático Trabalhista (PDT) e governador dos estados do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, e apresentou ao Brasil uma política diferente, focada em garantir dignidade às populações marginalizadas. Por se tratar de ideal antagônico aos interesses das elites, visto que subvertia a estrutura social posta, este, até hoje, enfrenta ferrenha oposição.
O político nos direciona no sentido da necessidade de romper com o status quo do estado patrimonialista, que, segundo o antropólogo Bernardo Sorj, é utilizado como ferramenta de coação e domínio, caracterizando-se como um “sistema repressivo e jurídico, sendo um instrumento de violência contra os grupos mais pobres e de impunidade dos mais ricos”.
Nesse sentido, para o Pedetista, o Estado deveria cumprir sua função social sem distinções, e as políticas públicas deveriam ter por vislumbre a garantia do bem-estar social da população e a mitigação do panorama de desigualdade que nos constrange.
Desse modo, não é papel do Estado figurar como mecanismo de dominação de uma classe por outra, apesar da história da institucionalização brasileira demonstrar tratar-se de prática recorrente. Por outro lado, cabe ao aparelho estatal permitir ao povo a fruição da vida de forma equitativa, sobretudo com dignidade.
A constante confusão entre o público e o privado, gênese do coronelismo e outras formas arcaicas de exercício do poder, deve ser superada.
Assim como feito por Brizola, é necessário ousar na ampliação do acesso aos bens de consumo coletivos. Ou seja, importa garantir que os serviços públicos alcancem as populações mais fragilizadas, sendo dever do Estado possibilitar um horizonte com melhores perspectivas.
O ônus de empunhar uma bandeira revolucionária como esta, que desagrada uma fração privilegiada da sociedade, é ser empurrado para o ostracismo, como ocorreu com o gaúcho radicado no Rio de Janeiro. Custam reconhecer o quão visionário foi Leonel Brizola ao investir naqueles outrora escanteados pelo Poder Público.
As boas ideias desse grande estadista brasileiro devem ecoar e influenciar os gestores públicos e a classe política a sopesar, no momento da formulação das politicas públicas, as demandas dos grupos historicamente marginalizados.
*Advogado, especialista em direito eleitoral e direito constitucional pela PUC Minas e pós-graduando em Gestão Pública e Sustentabilidade pela USP.
José Lauro Martins*
Os dados sobre a alfabetização do Censo Demográfico-2022 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que apresenta uma queda na taxa de analfabetismo entre os tocantinenses foram divulgados. Não vamos aos números absolutos, porque podem servir muito mais para confundir do que para informar. O que nos interessa é a taxa de alfabetização de 90,9% e a taxa de analfabetismo de 9,1%. A taxa de analfabetismo no Brasil encontra-se em 7,0%, ou seja, o Tocantins está 2,1% acima.
A pergunta que o leitor deve fazer é: isso é muito? É pouco? Estamos bem assim? Afinal, o que significa essa taxa de analfabetismo? Vamos lá. Primeiro, vamos observar que em 2010 a taxa de analfabetismo era 13,1%, então significa que tivemos um recuo de 4% na taxa de analfabetismo, isso é muito bom. Significa que as políticas de enfrentamento ao analfabetismo estão dando certo. Essa afirmação pode parecer otimista demais, pode ser. A que se lembrar ainda tivemos uma pandemia nesse meio que impactou severamente na educação.
Chamo a atenção para três variáveis que precisamos ficar atentos quando se trata de entender a taxa de analfabetismo. Uma das variáveis importantes é a taxa de crescimento demográfico. Se a taxa de crescimento demográfico for maior que a taxa de analfabetismo significa que estamos perdendo o jogo, ou seja, no próximo Censo Demográfico teríamos uma taxa mais analfabetos, enquanto o esperado é que tenhamos menos analfabetos.
Outra variável é a taxa de escolarização na idade certa. É uma variável importante porque quanto mais um estudante que fica para trás, aumenta a chance de ele abandonar o sistema de ensino. Porém, é uma questão bastante complexa porque as razões que levam um estudante a abandonar a escola são diversas. Pode ser o desalento com uma escola ruim, a dificuldade econômica dos pais, pode ser a distância que uma criança está da escola mais próxima, às vezes a fome faz os pais manter uma criança manter-se na escola por causa da alimentação escolar, ou para que a mãe possa trabalhar enquanto a criança é assistida na escola. Ou seja, a questão da evasão escolar é um fenômeno muito complexo e mais difícil de resolver do que dispor as vagas para todos sejam atendidos.
Mais uma variável a ser considerada é a taxa de analfabetismo funcional, e falamos pouco disso. Trata-se da qualidade do ensino, ou seja, se perguntamos para uma pessoa se sabe ler e escrever ela pode responder que ‘sim’, nesse caso ela está estatisticamente entre os alfabetizados. Se a mesma pessoa lê mais não entende, há uma grande chance de ela estar entre os analfabetos funcionais. O que mais interessa é que todos, além de alfabetizados, possam ler e compreender pela vida fora. São muitos os casos de pessoas com o ensino fundamental ou até mesmo com o ensino médio completo que se avaliados corretamente, vê-se-ia que são analfabetos funcionais. Os dados divulgados pelo Instituto Paulo Montenegro (IPM) e pela ONG Ação Educativa, apontam que 38% dos universitários brasileiros são considerados analfabetos funcionais.
Há que entender também que uma pessoa analfabeta ou analfabeta funcional na idade adulta é muito mais difícil dela retornar ao sistema de ensino. A chance dessa pessoa manter-se por toda vida como analfabeta é bem grande, por mais que os governos invistam em política para alfabetização de adultos. A taxa de analfabetismo funcional da população brasileira de 15 a 64 anos é próxima de 30%.
Essa é uma questão que incomoda também em outros países, um estudo da Universidade de Hamburgo em 2019 identificou que 12% dos cidadãos alemães entre 18 e 64 anos são analfabetos funcionais.
Um fator a lembrar é que a alfabetização na idade certa está prioritariamente nas mãos das prefeituras, pois o ensino fundamental é prioritariamente uma responsabilidade dos municípios. Claro que o Governo Federal também tem responsabilidade, mas quem administra o dia a dia da educação infantil e do ensino fundamental são os secretários de educação dos municípios. E aí dá um certo desgosto… Pois o que vemos em muitos municípios não oferece um serviço de educação digno a população que escolheu seu prefeito acreditando que faria uma boa gestão na educação e “dá com os burros n’água”. Podemos dizer que se a gestão municipal é ruim na área da educação, o Governo Federal fica de mãos atadas. Mas, se melhoramos o índice de alfabetização no Estado do Tocantins, é resultado da atuação dos governos municipais!
* Filósofo, doutor em educação, professor no Curso de Jornalismo e no Programa de Mestrado de Ensino em Ciências e Saúde da Universidade Federal do Tocantins.
