Artigo de Opinião

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Filme de Andrucha Waddington com Fernanda Montenegro mostra o poder de uma mulher comum contra o crime em comunidade do Rio

Artigo de Opinião
Sobre a leitura contemporânea: Um Breve Percurso

A transformação dos hábitos de leitura frente às mudanças digitais e seus impactos na formação do sujeito contemporâneo

Artigo de opinião
Arqueogenealogias do discurso do Norte: Sentidos e sujeitos tocantinenses

Arqueogenealogias do Discurso do Norte, do professor Thiago Barbosa Soares, da Universidade Federal do Tocantins, é uma obra de fôlego, comprometida não apenas com a análise crítica da linguagem, mas com o desvelamento dos mecanismos de poder que se infiltram silenciosamente nos discursos que moldam a realidade sociopolítica do Tocantins.

Mais do que um exercício acadêmico, o livro, publicado pela Pontes Editores, configura-se como uma tomada de posição: um gesto de resistência discursiva frente às verdades estabelecidas e às naturalizações que, cotidianamente, sustentam relações de dominação.

A partir da perspectiva da Análise Arqueogenealógica do Discurso — em forte diálogo com o pensamento de Michel Foucault —, o autor empreende um trabalho minucioso de escavação e desnaturalização dos enunciados midiáticos e políticos que circulam na região Norte, com ênfase particular no Estado do Tocantins.

Em cada capítulo, há um esforço contínuo de compreender como os discursos não apenas
refletem a realidade, mas sobretudo a produzem, disciplinando corpos, modelando subjetividades, e orientando condutas. Os conceitos que ancoram a análise — como governamentalidade, episteme,
dispositivo, objetivização e unidade de discurso — não são meramente evocados como
jargões acadêmicos, mas colocados a serviço de uma crítica que é ao mesmo tempo
epistemológica e política.

O autor demonstra, com clareza teórica e sofisticação metodológica, como o discurso opera como campo de forças, como prática que incide sobre o real, instaurando verdades e apagando dissensos.

Ao longo dos capítulos, o autor percorre um amplo espectro temático, abordando desde o discurso político-midiático palmense até questões de gênero, raça, religião, segurança e educação, sempre com um olhar atento às articulações entre linguagem, poder e subjetivação. Em sua análise da matéria sobre a gestão do prefeito Eduardo Siqueira Campos, por exemplo, evidencia-se a tensão entre discursos de matriz populista e burocrática, em uma tessitura que revela as disputas pela legitimidade do poder local.

Já no estudo sobre a cobertura midiática da premiação do humorista Paulo Vieira, o autor desvela as estratégias de apagamento e a constituição de uma narrativa meritocrática que desconsidera as estruturas desiguais de acesso e visibilidade.

Cada capítulo atua como uma espécie de laboratório analítico em que o discurso é dissecado com precisão quase cirúrgica. Ao tratar da transparência pública, da militarização das escolas, das desigualdades de gênero, ou das representações raciais em eventos escolares, o autor não apenas interpreta o enunciado — ele o historiciza, o tensiona, o coloca em confronto com outros saberes e práticas que lhe dão sustentação ou resistência. Assim, a obra adquire também um valor pedagógico: ela ensina a ler o discurso em sua densidade política e histórica, a perceber o que está em jogo quando se fala — e, sobretudo, quando se cala.

Há ainda um mérito estético e ético que perpassa todo o texto: a escrita é ao mesmo tempo rigorosa e sensível, crítica e generosa, marcada por um compromisso com a escuta atenta das vozes que se fazem presentes e, principalmente, daquelas que são silenciadas nos discursos hegemônicos. A análise não se contenta em descrever — ela interpela, provoca, desloca certezas. O autor convida o leitor a sair do conforto da interpretação neutra para adentrar um território de disputa, onde a linguagem é sempre atravessada por interesses, ideologias e estratégias de subjetivação.

Arqueogenealogias do Discurso do Norte não é apenas um livro sobre o Tocantins — é uma lente afiada para se pensar o Brasil. Ao examinar discursos locais, o autor ilumina estruturas mais amplas que operam em escala nacional, revelando como os jogos de saber-poder se atualizam nas narrativas que permeiam o cotidiano, especialmente nas regiões historicamente periféricas no imaginário nacional.

Nesse sentido, a obra contribui decisivamente para uma descentralização epistemológica: ela mostra que há pensamento potente, crítico e inovador vindo do Norte, e que esse pensamento tem muito a ensinar sobre os modos como o discurso se entrelaça com a vida social. Como disse a prefaciadora, querida amiga do autor deste livro, a quem ele agradece publicamente o gentil texto de abertura, boa leitura a todos!

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Ponte JK: Mais que infraestrutura, governo federal precisa devolver dignidade ao Bico do Papagaio

Demora nas ações após o desabamento da Ponte JK em 2024 tem gerado críticas, especialmente pela falta de apoio às famílias das vítimas e aos moradores da região; deterioração das rodovias locais aumentam as dificuldades. A reconstrução da ponte está prevista para 2025, mas a assistência social e econômica ainda é insuficiente

Prioridades invertidas: quando o beach tennis importa mais que a pobreza

Enquanto 69 mil tocantinenses estão na extrema pobreza, sobrevivendo com menos de R$ 209 mensais, deputada Vanda Monteiro propõe dia do Beach Tênis, esporte nichado e elitista 

Artigo de opinião
Lula prepara um pacote de bondade que pode ser uma bomba para o Brasil

Um clamor pela austeridade fiscal

Flores, parabéns e um buraco em nosso espaço

Jaqueline Moraes *

O Dia da Mulher chega e, como um grande bingo do óbvio, as mesmas coisas acontecem: flores, chocolates, frases motivacionais escritas por homens que jamais dividiriam uma reunião de poder com uma mulher sem interrompê-la pelo menos três vezes. Oito de março é lindo, inspirador, emocionante. Até que acaba. E a gente volta pro mesmo lugar de sempre.

No Tocantins, a gente olha para a política e parece um álbum de figurinha onde esqueceram de colar as nossas. Dos 24 deputados estaduais, só três são mulheres. Na Câmara Federal? Nada. No Executivo, até estamos lá, mas quase sempre em cargos que envolvem acolher, cuidar, organizar. Nunca no comando de fato. Nunca na linha de frente. É quase como se dissesse: “podem entrar, mas fiquem ali no canto”.

E enquanto isso, os números de violência contra a mulher crescem. O feminicídio aumenta. Os casos de abuso se repetem. Todo mundo fica horrorizado por dois minutos e volta a falar sobre outra coisa. Mas e as políticas públicas? Ah, essas são como aquele crush que diz que vai te ligar e some. Só aparecem quando dá, quando tem interesse, quando é conveniente.

A verdade é que ensinaram a gente a aceitar migalhas. A baixar a cabeça quando nos cortam no meio de uma frase. A acreditar que política é coisa de homem porque “ah, é muito suja”. Como se o mundo aqui fora fosse um spa. Como se a gente já não precisasse brigar todos os dias para existir, para ser ouvida, para sair na rua sem medo.

Então, parabéns pelo nosso dia. De verdade. Mas, se puder, guarde as flores e nos dê espaço. Nos dê segurança. Nos dê direitos. Porque a gente não quer só um dia bonito no calendário. A gente quer o ano todo. E os espaços? Ah, eles precisam ser nossos também. Nao foram vocês que disseram hoje que "lugar de mulher é onde ela quiser"?

* Aos 30 anos é jornalista, poetisa, feminista e ativista cultural. Acredita que as palavras têm poder, mas que nenhuma é tão forte quanto a voz de uma mulher ocupando seu espaço.

Artigo de Opinião
Uma infeliz polarização

Nosso país tem problemas políticos, econômicos e sociais gigantescos. E isso já vem há muito tempo, infelizmente

Artigo de Opinião
A violência nossa de cada dia ou crônica tirada de uma notícia de rede social

Eder Ahmad Charaf Eddine *

Recentemente, me deparei com uma notícia que me envolveu em emoções nada agradáveis. Não gosto de violência, mas, assim, veiculada diariamente em manchetes de jornais e em memes, acabo me acostumando a ela, mas não devia.

Quem: Um professor, deficiente visual. Ocorrido: espancado por três alunos adolescentes. Onde: ponto de ônibus à frente da instituição de ensino na qual trabalhava. Motivo: tentar impedir o uso do celular durante a aula.  

O evento é curioso porque promove com o professor o “te pego lá fora”, eterno medo das crianças em idade escolar e, hoje, dos profissionais da educação. Vocalização corrente do bullying, a frase promete agressões futuras, principalmente contra gays, trans, nerds e até deficientes.

Não apresento soluções idealistas e irreais que jamais seriam implantadas, foco nos comentários sobre o caso em uma rede social. Das soluções apresentadas, algumas pediam a criação de mais escolas militares; outras, a expulsão dos envolvidos. Alguém também previu que o próximo passo dos adolescentes seria o espancamento público da diretora. A revolta se alastrou e gerou mais violência, com culpabilizações de partidos políticos e dos pais ou responsáveis pelos agressores.

O preparo para a Lei 15.100/2025, que dispõe sobre a proibição do uso de aparelhos eletroportáteis em ambientes escolares, com exceção das oportunidades didáticas promovidas e conduzidas por um professor, requer mais celeridade. A Lei é importante, prevê situações psicológicas e sociais. Contudo, existem soluções melhores do que “tomar e repreender verbalmente”. Todas as ações necessitam ser pensadas, discutidas e observadas. Notícias como essas só geram mais violência e sentimentos de impunidade.

O quadro de violência pode ser diminuído com o trabalho de profissionais psicólogos e assistentes sociais, mas esses necessitam de estrutura e, obviamente, de atuação baseada na ciência. A Lei é recente, a violência, não.

Outro dia, em uma entrevista, um jornalista me fez a seguinte pergunta: um único desejo? Respondi: Paz. Às gargalhadas, ele rebateu: Muito Miss!

Pareceu, mas não era ingenuidade. À época, eu estava lendo Comunicação Não Violenta, de Marshall Rosenberg. Ainda que eu possua críticas ao método e ao processo mercantilizador, o livro descortinou em mim as violências cotidianas que eu cometia e que cometiam comigo.

No princípio da Paz, se eu não for um pouco Poliana, como vou sobreviver diante do que estamos passando atualmente? O século 20 foi marcado por muitas atrocidades. Almejada e solicitada por alguns movimentos sociais das décadas de 1980 e 1990, a paz não foi alcançada.

Estamos enfrentando diversas guerras desde o início dos anos 2000. Caminhamos para barbáries, cada vez mais, impensáveis. Líderes de nações conduzem a vida pública da mesma forma que se utiliza um controle de videogame num jogo sangrento, de preferência. A compensação de tais disputas: mais popularidade, mortes e dinheiro. Tudo somado às violências cotidianas, as “sutis”, ampliadas pela pandemia.

A anestesia da violência é real, mas o choque provocado por essa notícia me afetou mais do que outras por conter três componentes que merecem atenção: a escola, a deficiência visual e os adolescentes. Ao motorista de ônibus que retirou o infeliz debaixo da horda furiosa, a esse homem que salvou um professor, o meu muito obrigado!

* Psicólogo (CRP - 23/1465), professor e pesquisador em Comunicação e Saúde Mental. Doutor em Educação, área Psicologia e Educação (USP). Possui especialização em Terapias Cognitivo-Comportamentais, em Psicopedagogia e em Educação e Sociedade. Orienta no Mestrado em Comunicação e Sociedade (PPGCom/UFT). Autor do livro finalista do Jabuti Acadêmico 2024 "Psicologia, Educação e Homossexualidades: o normal e o patológico em revistas científicas de 1970 e 1980".